Esse texto foi apresentado no evento: Do relato ao caso, realizado no final do primeiro semestre de 2024 e voltado para os participantes do Seminário Clínico e da Rede Clínica do Instituto Gerar. Nesse encontro, os coordenadores do Seminário Clínico – Augusto Coaracy, Daniel Lirio, Maria Leticia Reis e Mariana Angelini – fizeram breves intervenções que pretendiam construir algumas bordas a respeito da apresentação de casos clínicos. O Seminário Clínico é um dispositivo que conta com a apresentação e a discussão de casos a partir de impasses, questões, acontecimentos que intrigam o clínico.
Nas discussões do Seminário, o grupo de participantes e de coordenadores extrai um tema a ser debatido teoricamente no encontro seguinte, com o apoio de textos que abordem aquele tema. O evento citado foi, então, tanto um fechamento do semestre, como uma abertura ao trabalho que está em contínua construção. Melhor dizendo, o encontro pôde ser acolhido como uma fresta que propôs outro tempo-espaço para que participantes e coordenadores pudessem avançar nas elaborações que esse dispositivo convida a perenemente sedimentar.
Na ocasião, cada coordenador desenvolveu o tema não só a partir de pontos singulares que os tocam em seus percursos com a psicanálise, como também a partir de suas experiências com a tarefa de sustentar, escutar e intervir nos encontros do Seminário.
O que se apresenta a seguir é um texto que contém sutis transformações que se pretendem mais palatáveis ao leitor, mas que também carrega as marcas orais endereçadas àquele encontro, convidando o leitor a se transportar e a escutar seus burburinhos, suas sonoridades e gestualidades e, ademais, a vislumbrar um encontro novo.
O título – Do relato ao caso – que nomeia e enquadra nossos motivos de estar aqui hoje indica uma espécie de movimento, uma passagem, um vetor que leva de uma coisa à outra. Evidencia tanto uma diferença posicional entre um e outro como as possíveis relações entre o relato e o caso. Para abordar esse movimento, parto de uma questão que me instiga: o que pode levar um analista a querer falar de um caso?
Há um vasto campo de discussão em psicanálise que pretende dar conformidade ao que se define por caso clínico. Um livro, por exemplo, que trabalha o tema com bastante rigor e criatividade é Construção de casos clínicos em psicanálise: método clínico e formalização discursiva, organizado por Christian Dunker, Heloísa Ramirez e Tatiana Assadi. Nesse livro, produto de anos de pesquisa em rede, os autores se propõem, a partir do artifício da escrita, construir narrativas que abordam a historicidade, o quadro atual, os impasses e as questões para, então, praticar exercícios de formalização que conduzam o clínico em seu fazer e transmitam recortes de movimentos transformativos que acontecem no interior de um trabalho analítico. O livro convida os analistas a transitarem de suas posições na transferência para a posição de autor; trânsito este crucial para cultivar a vivacidade da psicanálise no campo social: ou seja, trata-se de dar dignidade à aposta freudiana de escrever e de praticar a teoria desde a experiência com a clínica.
Porém, minha pretensão não é a de trilhar minuciosamente esse campo de debate e sim a de apontar alguns caminhos que percorri a partir da questão que me comoveu a produzir algo para o encontro de hoje. Retomo: o que pode levar um analista a falar de um caso clínico?
Sabemos que não é um exercício simples falar da clínica. Falar da clínica implica transmitir um jeito próprio de escutar, de intervir, de lidar com os equívocos, com os tropeços e com os pontos surdos; o que pode comportar, inclusive, algumas doses de constrangimento, inibição e até certa repelência. Não raro, analistas sentem-se angustiados em traduzir, no território das supervisões, suas intervenções, suas atuações e seus atos. Em um espaço como o Seminário Clínico, mais povoado do que uma supervisão, essas doses de constrangimento e de vergonha podem ser até mais elevadas. Nesse sentido, torna-se mote de trabalho dos coordenadores propulsionar um espaço onde se cative tanto uma generosidade com a exposição clínica de quem se propõe apresentar, como certa liberdade de interrogar, contribuir e intervir – partindo da prerrogativa de que estão todos, inclusive coordenadores, em [tempos diversos de] formação.
Mas, então, o que pode levar um analista a falar da clínica?
No clássico “Sobre o amor de transferência”, de 1915, texto que trabalha, digamos assim, com as vísceras da psicanálise, Freud diz que esquece, com frequência, que os efeitos mais obscuros do trabalho analítico são provenientes da transferência. Isso que Freud enuncia me parece transmitir muito o tipo de matéria e o campo com o qual os analistas operam. Quando se trabalha com o material inconsciente nos enquadres sempre singulares da transferência, muitas vezes, o clínico está sujeito a experimentar certa nebulosidade em relação ao que se passou em determinada sessão, ou uma espécie de sideração, ou mesmo uma submersão em reticências – como se faltassem palavras para articular um raciocínio sobre o caso. Atire a primeira pedra quem nunca experimentou algo disso. Mas há que se perguntar: por que esse tipo de fenômeno acontece?
Não são raros os trabalhos em psicanálise que tratam das dificuldades dos analistas com os manejos transferenciais ou, mesmo, da dificuldade de acolher certas transferências. Entretanto, não há outra saída – melhor dizendo, não há outra entrada: para que uma experiência analítica aconteça, o analista deve consentir com a transferência; o que não implica responder à demanda de amor que a habita. Mas há que topar e dizer sim para que se tenha condições de manejá-la. A mim, muitas vezes, é bastante nítido o momento em que topo, no sentido do deparar-se, dessas topadas que acontecem rápida e repentinamente, sem que se tenha o tempo do titubeio. Lembro-me de uma garotinha que, depois de algumas entrevistas com seus pais, chegou para sua primeira sessão. Uma braveza estampava seu rosto e um olhar de desconfiança rondava a sala e toda a extensão de meu corpo. Depois de minutos de constrangedor silêncio, ela diz: “eu não quero vir aqui, eu só estou aqui porque meus pais me obrigaram”. Encaro-a por um tempo e lhe respondo, com honestidade e seriedade: “eu também não sei se quero te atender, eu escutei os seus pais, você ainda não”. Ela então me olha, passeia o olhar pela sala, me olha novamente e diz: “você é mesmo uma típica psicóloga, bem estranha”. Típico e estranho conduziram o curso desse tratamento até onde ele pôde ir. Lembrei-me desse trecho clínico e elaboro agora: o tipo de presença que ela apresentou e o modo como pude responder naquele momento configuraram o encontro transferencial. Antes mesmo de ela apresentar os significantes que a levaram a um trabalho analítico, sua braveza e sua desconfiança, o fato de dizer “não”, bem como aquilo que brotou de minha boca, apontando para a indeterminação do que poderia se produzir ali, entre ela e eu, dissolveram a demanda parental e abriram espaço para um endereçamento próprio.
Também há aqueles casos em que se leva bastante tempo até acontecer essa topada. Casos em que nos perguntamos: “mas o que essa pessoa está fazendo aqui?”. Ou: “o que eu estou fazendo aqui?”. Até que, em algum momento, o encontro transferencial se dá – às vezes pela via do silêncio, do gesto ou de algum comentário aparentemente aleatório, algo comparece de absolutamente singular no modo como o sujeito faz laço e, então, é lançado ao analista, que deve pegar essa bola, caso isso caiba em suas possibilidades de escuta. Penso que as entrevistas preliminares são esse tempo indeterminado e finito para que o encontro, a topada aconteça e aconteça inclusive por parte do analista. Nesse sentido, podemos entender um pouco melhor quando Lacan diz que a resistência é do analista.
Mas, enfim, fiquei instigada em adentrar um pouco mais nos efeitos obscuros dos quais Freud nos adverte. Como entendê-los? Frederic Vinot, em A voz na psicanálise (2015), escreve lindamente sobre o assunto no texto “De uma dimensão vociferante da transferência”. Ele trabalha a partir da fuga de Breuer no caso de Anna O., perseguindo a seguinte questão: por que será que Breuer demorou treze anos para escrever sobre isso? A hipótese é a de que, para além do constrangimento e da afetação que sentiu por ter sido tomado como objeto de amor por sua paciente, sua esquiva também denuncia algo mais real com o qual ele não topou topar. Vinot trabalha a partir da posição do analista que bascula entre sujeito suposto saber e semblante de objeto causa de desejo. Enquanto sujeito suposto saber, o analista é revestido pela dimensão agalmática do objeto, essa dimensão brilhante, radiante, suposta guardar uma preciosidade de saber sobre o sujeito que o procura para uma análise. Mas o que o analista sabe é que, ali onde se vislumbra haver uma pérola, há uma ausência, um vazio. Um vazio que, muitas vezes, é depositário de resíduos de modos de gozo. Resíduos pulsionais das versões da posição de objeto com que um sujeito se traveste em seu figurino fantasmático e que podem se expressar nas dimensões oral, anal, escópica, invocante. A posição de depósito dos restos pulsionais, segundo Vinot, seria a dimensão real da transferência. É esse tipo de sedimento invisível e denso que se coloca no campo transferencial e que não é sem efeitos para o clínico. É justamente a partir desse lugar que se pode recolher certa afetação opaca, turva, aquilo que aponta para o umbigo do caso, como brincou Maria Leticia Reis, em uma de nossas conversas. Vinot pergunta, em seu texto, aos analistas: “você aceitará esse lugar de resíduo, para além do agalma?” – pergunta pertinente cada vez que recebemos alguém para sua sessão.
Voltando a Breuer e Anna O.: a paciente em questão, na época de seu trabalho com o médico, apresentara um conjunto sintomático, manifestado em transferência, que envolvia ausências, torpor, impossibilidade de encadear pensamento ou mesmo de escrever. Uma paciente sem palavras, um clínico que se cala por treze anos. A hipótese de Vinot, em relação a esse intervalo taciturno e silente, diz respeito ao efeito de sideração produzida pela dimensão vazia do objeto da qual Breuer nada quis saber. Depois desse intervalo, quando ele publica finalmente o caso, por insistência de Freud, o que ele diz a respeito dessa sintomatologia é que se sentia estupefato.
Podemos pensar, então, que muitas vezes falar de um caso é deixar passar a dimensão na qual o analista está implicado com o caso, embaraçado com o caso, misturado, às vezes até assombrado com o caso. Podemos pensar, também, que não há caso em psicanálise sem que se possa vislumbrar a posição do analista – isso Lacan nos adverte no Seminário 8, quando diz que o analista faz parte do caso, na medida em que faz parte do próprio conceito de inconsciente, uma vez que ele se constitui como endereço privilegiado dessa matéria gasosa e pregnante, se assim podemos brincar.
Talvez o que leva um analista a falar de um caso, para além da dimensão agalmática que envolve mostrar suas intervenções, guarde alguma intimidade desconhecida com a posição residual, siderante e obscura em que se presta ao se colocar em estado de escuta. Quando um analista fala de um caso, o que esse caso pode falar para o analista? Podemos pensar que falar de um caso seja uma forma de se ouvir com esse caso? Falar de um caso, mobilizado por sua posição, sua implicação na transferência, pode produzir um efeito de separação dessa dimensão siderante, obscura, real – separação necessária que abre espaço para o advento do ato?
Essas perguntas-convites partem da aposta de que esse dispositivo, em contínua construção, seja um dos espaços possíveis em que o analista possa produzir uma escuta de seu fazer a partir da construção singular que faz quando se põe a falar de um caso. Também são perguntas pertinentes aos coordenadores do espaço e se estendem aos analistas que se propõem escutar, em supervisão, a clínica de outros analistas. Como produzir um efeito de separação dessa dimensão siderante que as experiências com as transferências proporcionam?
Como diz Daniel, nem tudo precisa ser dito, há que se fazer um recorte, tentar extrair o que interessa da posição inconsciente do analisante. Ou então, como tem sugerido Augusto: fale do caso em associação livre, o que convida o analista a fazer um encadeamento, uma articulação em tempo real para que se possam ouvir, de forma mais espontânea, os tipos de impasses que se colocam para a escuta analítica. Ou mesmo, como diz Maria Leticia: o que esse caso dá a ler? Qual a escrita desse caso? Ler não é uma atividade passiva. Ler implica que o leitor entregue algo de si, que se deixe afetar e que faça uma interpretação.
Uma vez, em supervisão, angustiada com um caso, disse à supervisora: “eu não sei o que fazer, como interpreto isso a ele?”. Ao que ela me responde: “também não sei, é sempre um tanto inusitado e autoral como essas coisas se dão. Boa sorte”. Às vezes, penso que aos analistas, assim como aos atores que estão prestes a entrar em cena, deveria se desejar “merda”; afinal, no palco transferencial, cabe ao analista e ao analisante toparem também com isso.
Dunker, C., Ramirez, H. & Assadi, T. (2017) A construção de casos clínicos em psicanálise: método e formalização discursiva. São Paulo: Annablume, 2017.
Freud, S. (1915) Observações sobre o amor de transferência. In: Obras completas. Trad. Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Lacan, J. (1901-1981) O seminário, livro 8: a transferência. 2. ed. Trad. Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Zahar 2010.
Vinot, F. (2015) De uma dimensão vociferante da transferência. In: Maliska, M. A voz na psicanálise: suas incidências na constituição do sujeito, na clínica e na cultura. Curitiba: Jaruá, 2015.