13_As aventuras das crianças na cidade incômoda

Paula Fontana Fonseca

É numa casa que a gente se sente só. E não do lado de fora, mas dentro dela. No parque, há pássaros, gatos. E também, uma vez, um esquilo, um furão. Não estamos sozinhos em um parque. Em casa, porém, ficamos tão sós que às vezes nos perdemos.

(Marguerite Duras, 1993/2021, p. 23)

 [1]

Nos anos de pandemia, uma mãe contou que a filha se espantou ao ver que, no desenho a que assistia na televisão, o garotinho, com uns quatro anos, como ela mesma, saía de casa sem usar máscara. Como explicar que era assim que se saía às ruas e que a máscara, que tinha se tornado mandatória, era um acessório tão necessário quanto circunstancial? No período pandêmico, aquela era a forma de estar no espaço público, de encontrar pessoas que não habitassem a mesma casa ou não partilhassem a mesma bolha.

As crianças são introduzidas ao mundo humanizado pelos adultos e com esse ato, tanto significações quanto tradições e hábitos são transmitidos de forma intencional, mas não só. Por isso mesmo, muitas vezes, os adultos acham graça quando veem uma criança brincando de dar bronca nas bonecas e se interrogam se, como pais, seriam bravos daquele jeito. É uma espécie de jogo de espelhos, alguém se reconhece naquilo que o outro parece mostrar. Mas, para que esse jogo aconteça, será necessária alguma insistência, constância, engodo e uma boa dose de espírito aventureiro: se ver no outro, como outro, a partir do outro e com o outro para que, em um gesto espacial, uma imagem se fixe em um eu. O interessante é que, ao mesmo tempo que o eu será tributário do outro, ele também poderá desconfiar e tentar enganá-lo.

Não exagero ao afirmar que, não fosse o enigma, a psicanálise não existiria. Para seguirmos no campo da infância e de suas brincadeiras insistentes, podemos retomar as colocações de Freud (1908/2015), quando discorreu acerca das hipóteses formuladas por crianças de sua época sobre a sexualidade. Ao colecionar exemplos familiares, alguns deles colhidos junto a seus colegas que eram pais, ele percebeu que as crianças criavam teorias elaboradas quando se viam diante de algo que restava enigmático, mesmo que algumas explicações ajustadas fossem oferecidas de forma mais ou menos pedagógica.

Diante dessa impossibilidade estrutural de satisfazer por completo sua curiosidade, a criança se lançava em fabulações, visando à construção de um saber sobre o sexual onde o adulto parecia se recusar a entregar a verdade – verdade essa, é importante frisar, que o adulto tampouco tinha para lhe dar. Certa vez, uma menina de cerca de seis anos contou para a mãe que sua amiga havia dito que os pais, uma vez que obviamente tinham filhos, teriam tido relações sexuais. A garota ficou ressabiada e indagou: “você fez sexo com o papai? Quando, se eu nunca ouvi nada…?”. Um saber se constrói nesse espaço aberto da insuficiência explicativa, ao mesmo tempo que não irá esgotar o sentido das coisas, ou seja, algo sempre poderá ser diferente do sentido mais ou menos fechado que lhe é atribuído. Mesmo que a mãe responda às perguntas incômodas da filha, ela pode seguir desconfiando se aquela é a verdade, afinal, nunca ouviu atrás da porta algo que confirmasse a hipótese do coito parental. 

O saber é articulado no campo do Outro e localiza o sujeito em uma trama que se tece há gerações. Em sua gramática, Lacan (1972-1973/2010) grafou o saber como S2 (deux/dois), anunciando por homofonia que o significante que precipita a cadeia discursiva vem do Outro – deles (d’eux/deles). Quando escutada em francês, a expressão S2 também abre uma questão: “será deles?” (est-ce d’eux?[1]. Dessa forma, Lacan usou a equivocidade para indicar que esse significante vem do campo do Outro e, ao mesmo tempo, se articula como “um enigma” (Lacan, 1972-1973/2010, p. 265). A criança depreende que foi suposta e encontrará suas maneiras de responder ao que articula como uma pergunta: “ao me dizer isso, o que ele, esse que encarna o Outro, quer de mim?”.

O fato de as crianças serem insistentes no brincar testemunha esse entrecruzamento da transmissão adulta de um mundo que, em parte, está estabelecido e, em parte, é reinventado ao ser vivido. Ao ler um livro de novo e mais uma vez há o júbilo, do lado da criança, de encontrar o final conhecido, de modo a extrair alguma estabilidade para além da inconstância dos sujeitos em cena e, assim, regozijar-se nesse campo transacional criado entre dois.

Dolto (1981/1996) relatou um encontro divertido que teve com Jacques, um bebê de nove meses que estava acompanhado de sua mãe em um jardim público. Meio ao acaso, a jovem Dolto iniciou um jogo com o bebê, que lhe fora apresentado pela mãe como sendo um tanto lento e arisco. Notando algum interesse da mão direita do pequeno por seu chapéu, começou a mostrá-lo, a aproximar e a distanciar o chapéu da mão do menino, enquanto dizia “chapéu”. Essa primeira interação se desdobrou em jogos de lançar e recuperar o chapéu – brincadeira que a mãe dizia ser a favorita do bebê, ainda que um tanto cansativa para ela – e de esconder-achar. Depois, para fazer uma piada, Dolto primeiro apresentou o chapéu, dizendo “chapéu”, e o escondeu atrás de seu corpo, afirmando “não tem mais chapéu”. Em seguida, propôs uma inversão: dizia “não tem mais chapéu” enquanto mostrava o objeto aveludado para o bebê e “chapéu” quando o escondia atrás do corpo. Deixando, assim, de corresponder o gesto à fala como uma forma de divertir-se naquela repetição, “de repente, e pela primeira vez em sua vida, Jacques pôs-se a rir às gargalhadas, o que, como vocês podem imaginar, surpreendeu tanto a mim quanto a sua mãe!” (Dolto, 1981/1996, p. 10). Ao lembrar-se dessa história, Dolto comenta como um bebê pouco comunicativo exprimia o júbilo de assenhorar-se da realidade ao viver a alternância entre confirmação e contradição, ou seja, ao aceder à função simbólica no jogo partilhado com outro humano.

Há um detalhe da história que também nos interessa: esse é um encontro ocorrido ao acaso, no espaço público de um parque ou praça. Há, na própria montagem da cena, elementos que compõem a alternância em jogo no brincar: algo se confirma, “aqui está o chapéu”; algo é desafiado, uma mulher propõe uma forma de brincar que era inédita ao bebê. Trata-se de um exercício de continuidade e descontinuidade vivido no espaço público, espaço para além da casa, que se constitui na relação com o familiar – na cena, representado pela mãe – e com algo que vai além, que desafia fronteiras, que brinca com torções do instituído. Se para a mãe era exaustivo buscar objetos lançados pelo bebê, Dolto se encontrava com outra disponibilidade, talvez, inclusive, por não ser a mãe do bebê e por não ter que se ocupar dele e de todas as vicissitudes que isso implicava. 

Neste artigo, pretendo me aproximar da experiência de (des)continuidade que ocorre na relação do ambiente familiar, a casa, com o espaço público urbano, dando ênfase ao que os adultos transmitem sobre estar na cidade para as crianças e o que elas fazem com isso [2]. Para tanto, vou recorrer a excertos literários com o intuito de pôr em questão nossa forma contemporânea de articular a criança com o espaço urbano, o que pode também ser pensado em termos de articular uma experiência de estranho-familiar, tal qual anunciada por Freud (1919/2019). 

Para essa aproximação, vou lançar mão de duas traduções recentes para o termo alemão unheimlich. Uma delas, infamiliar – proposta por Ernani Chaves e Pedro Heliodoro Tavares, publicada pela Editora Autêntica em 2019 –, agrega o prefixo in ao vocábulo corriqueiro, de modo a criar um neologismo que imprime a sensação de estranheza que o original em alemão carrega. Essa tradução nos interessa por destacar a figura familiar presente na noção freudiana. Da mesma forma, a opção por incômodo – proposta por Paulo Sérgio de Souza Jr., publicada pela Editora Blücher em 2021 – garante a presença do prefixo de negação, marca do recalque, como sublinhou Freud, trazendo uma palavra corrente no português – característica do termo original alemão – de modo a privilegiar a oposição conforto/desconforto, tanto quanto a designação do espaço físico que se habita, por exemplo, os cômodos de uma casa. Das figuras do unheimlich, abordadas pelas diversas traduções, interessa-nos não só aquela que se destaca no neologismo infamiliar, ao qual farei referência quando citar o título do texto freudiano, como também as definições semânticas que o jogo entre cômodo/incômodo carrega.

 

A casa tomada

Há um belo conto de Cortázar (1951/2008) que abre seu livro Bestiário, intitulado “A casa tomada”. Ali, somos introduzidos à vida de dois irmãos que viviam isolados em uma casa espaçosa, antiga, que guardava as memórias de infância e das gerações passadas. Uma casa que abrigaria confortavelmente até oito pessoas e da qual essa espécie de “matrimônio de irmãos” (Córtazar, 1951/2008, p. 9, tradução nossa) se ocupava meticulosamente. 

A casa é apresentada como tendo a força de apartar os irmãos do mundo, chegando ao ponto de o irmão, narrador que nos conduz na trama, suspeitar que poderia ter sido ela que não os deixou casar, nem a ele nem a sua irmã. Viviam uma “necessária clausura da genealogia assentada pelos bisavós em nossa casa” (Cortázar, 1951/2008, p. 9, tradução nossa). Fechados dentro de uma casa silenciosa, viviam os dois e suas memórias de uma linhagem que se interrompia naquela geração. Nada de novo, apenas as mesmas tarefas executadas com exatidão, sobretudo a limpeza da terra que se juntava sobre os móveis, poeira vinda da cidade de Buenos Aires que adentrava a casa a cada rajada de vento. A pontualidade era uma outra forma de garantir a mesmice, de tentar reduzir a experiência temporal à medição feita pelo relógio diligente.

Acomodados na rotina e nos cômodos da casa, os irmãos se veem um dia surpreendidos por ruídos estranhos que vinham do fundo. Diante da constatação de que aquela parte havia sido tomada, apressam-se a fechar a porta do corredor. Nunca saberemos quem ou o que está ocupando gradativamente a casa. O que importa é que o amplo espaço vai se tornando apertado e os irmãos, premidos do lado de cá do corredor, se adaptam com alguma agilidade e pesar: entreolham-se com tristeza quando sentem falta de algo, “era mais uma coisa de tudo que havíamos perdido para o outro lado da casa” (Cortázar, 1951/2008, p. 13, tradução nossa). 

Davi Arrigucci Jr. (1991), ao comentar o conto, escreve que os irmãos são seres fracassados, mortos: “Fugiram à vida e agarraram-se à casa, ao espaço, ao mero espaço palco de sua inutilidade” (Arrigucci Jr., 1991, p. 28). Uma casa apartada do mundo é um arremedo de casa em que a clausura ganha ares de vida segura, uma vida sem vida, encerrada na exatidão do vivido e no receio do estranho, fixado em sua faceta sinistra. 

A casa, lugar íntimo e familiar, aos poucos é ocupada por algo, por um som ou por uma presença incômoda, que faz os irmãos abandonarem, no limite, a própria casa, como se estivessem trancados do lado de fora de uma casa que, sendo tão exclusivamente deles, se tornava inabitável à medida que algo conhecido há tantos anos se revelava em sua estranheza radical. A acepção espacial está presente em Heim – lar – de modo que é unheimlichinfamiliar, incômodo – aquilo que outrora fora doméstico, familiar, cômodo. O infamiliar, escreve Freud (1919/2019), fazendo alusão a uma formulação de Schelling, “seria tudo que deveria permanecer em segredo, oculto, mas que veio à tona” (Freud, 1919/2019, p. 45). 

O conto de Cortázar, escrito em 1948, tempos de guerra mundial, nos lança em uma vertigem quando olhamos para a relação casa-cidade que temos consolidado nos dias de hoje. Dunker (2015) nomeou como topologia da segregação ou lógica do condomínio esse novo paradigma. Para ilustrá-lo, trouxe uma seleção de anúncios publicitários do mercado imobiliário paulistano dos anos 1970 e 1980. Destaco três deles: “Desperte o homem livre que vive em você: mude para Chácara Flora”, de 1989; “Granja Julieta, vá lá e more feliz”, de 1976; e “Vila da Mercês: o direito a não ser incomodado”, de 1980. 

Os dois primeiros trazem essa dimensão da liberdade que se pretende vivenciar ao buscar um lugar distante do centro ou “da cidade”, como pessoas mais velhas costumam falar. É lá, portanto não aqui, que se pode morar e ser feliz. Morar longe, apartado da cidade. Não à toa, nessa mesma época, começam a surgir em São Paulo condomínios como o Ilhas de Sul, que conta com seis edifícios e um clube para os moradores na região oeste da cidade; o Portal do Morumbi, lançado na zona sul; e os Alphavilles, situados na grande São Paulo, que serviram de modelo a ser replicado país afora como um bairro exclusivo e protegido da violência urbana. São lugares que buscam uma homogeneidade socioeconômica, lugares, como diz o terceiro anúncio de forma explícita, onde as classes abastadas podem usufruir do direito de não serem incomodadas. 

A topologia da segregação estaria ancorada em uma lógica condominial que se relaciona com um ideal de vida no qual o morador poderia se proteger do outro, visto como perigoso, que precisa entrar nesse espaço murado uniformizado, identificado, para que os condôminos não sejam confundidos com quem vem de fora (Dunker, 2015). São espaços em que seus moradores reivindicam o direito à liberdade, à felicidade, a não serem incomodados. Na tentativa de blindagem, recriam esse mal-estar dentro dos muros, uma vez que os outros passam a ser encarnados nos vizinhos, drama encenado na série Os outros [3] (Paraizo, Lima & Carmo, 2023). A vinheta do seriado, inclusive, faz uma animação com o título e, de forma sagaz, o telespectador vê o verbo “sou” que está embutido em Os outros, permitindo que se leia “sou outros”, o que figura a indistinção presente na discussão acerca do infamiliar feita por Freud (1919/2019).

Assim como no conto “A casa tomada”, a cidade abandonada pela classe média a assombra tirando seu sono, sua liberdade, sua paz. Recentemente, o sucesso de outra série, Adolescência (Thorne, Graham & Barantini, 2025), fez com que a ideia de segregar e isolar os filhos e filhas dentro de casa como forma de mantê-los seguros dos perigos do mundo fosse novamente posta em questão: agora o perigo estaria dentro dos cômodos, pois as crianças circulam com mais liberdade na internet oferecida pelos próprios pais do que no espaço urbano.

Em cômodos que encerram a solidão, os sujeitos que ali habitam não têm a experiência de serem desacomodados de seus hábitos e certezas. A figura da alteridade reduz-se ao horror que o infamiliar invoca, mas que não o define em sua complexidade – horror exemplificado em experiências de planificação da alteridade que apartam as pessoas do espaço público como forma de as blindarem de serem interpeladas por encontros inusitados, como, inclusive, aquele que Jacques teve com Dolto (1981/1996).

 

No País das Maravilhas

Alice estava sonolenta quando viu passar um coelho apressado. Curiosa com o inusitado daquela situação, resolveu segui-lo, o que a fez cair em um poço, em queda tão demorada que teve tempo de olhar em volta: pote de geleia (onde se podia ler “geleia de laranja”), prateleiras, guarda-louças, quadros, livros. Depois de uma queda dessas, pensou a menina, “vão me achar muito corajosa lá em casa” (Carroll, 1865/2009, p. 15). Com essa frase, nós, leitores e leitoras, nos damos conta de que a história nos faz acompanhar Alice fora de casa – os objetos de decoração e os utensílios domésticos ficaram para trás. Ao fim da queda, ela se encontra em uma sala cheia de portas de tamanhos diferentes, mas nenhuma delas do tamanho exato para que a garota acessasse o jardim encantador que vislumbrava pelo pequeno buraco de uma das portas, que mais parecia ser uma toca de camundongos. Inicia-se uma espécie de jogo de tamanhos, Alice ou fica grande demais, ou pequena demais. Enquanto o jogo acontece, ela mostra coisas que já aprendeu: antes de beber o líquido que está na garrafa com a etiqueta “beba-me”, certifica-se de que no rótulo não esteja escrito “veneno” e repassa alguns conteúdos escolares. Ela se dá conta da grande confusão que está vivendo, pois, ainda ontem, ela era ela mesma, pensa, mas hoje já estava um pouquinho diferente, o que a faz indagar: se ela não era ela mesma, afinal, quem seria? 

Uma mistura de pátrias – sou o outro? – própria do transitivismo infantil. Engana-se o adulto que pensa ser tola a criança que chora ao ver outra cair. Aos olhos vividos, a criança não sabe algo tão óbvio quanto o fato de ser uma individualidade separada do outro. A criança consegue acessar a permanência desse ponto de indistinção eu-outro que precede qualquer separação e não deixa de existir, mesmo que reste para sempre perdido. Como destaca Didier-Weill (1997, p. 27): “a criança é menos inocente que o adulto perante o real; se ela se espanta com uma pedrinha, é porque não divide a concepção estática que o adulto tem do real”. Para ela, “o vazio de onde surgiu a pedra continua exercendo direitos sobre ela” (Didier-Weill, 1997, p. 27). Maud Mannoni (1995) conta uma passagem da infância em que seu marido, Octave Mannoni, apreciava a chuva pela janela de casa, fascinado com o fato de as gotas parecerem pontos de exclamação invertidos. Imóvel, perguntou para a mãe o nome daquilo, ao que ela respondeu que era água, chuva… Mas, para o pequeno Octave, não era disso que se tratava e, diante de sua insistência, a mãe esgotada concedeu: “isso não tem nome” (Mannoni, 1995, p. 71).

Alice conversa consigo mesma, testa-se para ver se teria se tornado alguém que conhece, alguma amiga talvez. Pondera que, se um adulto chamar por ela naquele instante, irá perguntar-lhe quem, no mundo, ela era e, dependendo da resposta, permanecerá ali até ser outra. Esse é apenas o começo da história, mas Alice logo inquieta-se: quem era ela? Estar um pouquinho diferente do que vinha sendo faria dela outra? Essa mesma pergunta vai lhe ser dirigida pela lagarta, um dos personagens que encontra ao longo da aventura, ao que responde: “Eu… eu mal sei, Sir, neste exato momento… pelo menos sei quem eu era quando me levantei esta manhã, mas acho que já passei por várias mudanças desde então […] Ser de tantos tamanhos num dia é muito perturbador…” (Carroll, 1865/2009, p. 55-57). 

Essa menina, que ousou sair do espaço caseiro para chegar ao País das Maravilhas, encontrou muitos personagens e experimentou coisas diversas, como ser grande demais ou ser muito pequena. Conheceu o receio que ratos e pássaros tinham quando escutavam histórias sobre Dinah, sua gata querida, e participou de uma corrida na qual apenas o Dodô conseguia entender a regra e da qual todos saíam ganhadores. São encontros de crianças, conversas e brincadeiras com coisas do mundo, enigmas, mal-entendidos, medos… Estar no País das Maravilhas é se encontrar com as maravilhas do mundo, se colocar à prova, mas também desvendar novas possibilidades, seja de tamanhos, seja de pensamentos, medos ou jogos (Baroukh & Fonseca, 2022).

Há um saber que se constrói quando as marcas familiares podem ser dialetizadas com algo que esteja para além delas, como a cidade que, enquanto espaço regido por uma política do coletivo, não está submetida ao fantasma parental. A frase, motivo de brincadeira nos dias de hoje, “você não é qualquer um”, comumente dita por uma mãe para seus filhos na novela familiar, enfatiza esse valor de distinção que uma pessoa assume no seio da família, valor que, no espaço público, não está garantido. Já outra frase, “eu crio meus filhos para o mundo”, aponta para um ideal que busca limitar a incidência familiar que tenderia ao incestuoso, não fosse o mundo como fato político, que retira a criança de uma tentadora redoma de vidro na qual seria presa fácil dos desejos parentais.

Ao fim das aventuras fantásticas narradas no livro, Alice recobra seu tamanho. Isso acontece quando responde à Rainha voluntariosa – a qual adora mandar cortar as cabeças daqueles que não se dobram aos seus desmandos – que não vai deixar de dizer o que pensa e o que sabe: “quem se importa com vocês? […] Não passam de um baralho!” (Carroll, 1865/2009, p. 145). Mal diz isso, desperta sob uma suave chuva de folhas secas que entram no sonho como as cartas do baralho que caem sobre si, em um belo exemplo do trabalho onírico. Foi no País das Maravilhas em que Alice disse, com todas as letras, que não iria dobrar sua língua e se submeter ao veredicto que lhe era imposto por um Outro caprichoso. Trata-se de um sonho que figura as aventuras infantis na busca da palavra própria, que a faz existir diante do Outro, aqui entendido como esse lugar familiar, caseiro e incômodo.

 

O que seria da casa sem a rua?

Se vivemos uma lógica condominial, que adensa os fantasmas infamiliares que habitam os sujeitos, e se as experiências na cidade são ocasiões de dialetizar os desejos familiares, de modo a possibilitar que as crianças construam um saber próprio que possa posicioná-las umas em relação às outras e aos grupos, temos um tensionamento que se faz ouvir. Do lado das famílias, recolhemos o medo da cidade, a vontade de tomar a criança como propriedade privada e de excluir o poder público e coletivo não apenas do espaço familiar, mas também das relações que as famílias estabelecem com suas crianças. De que isso seja pernicioso para as crianças, me parece que temos exemplos o suficiente, até mesmo com índices alarmantes de violência sexual intrafamiliar. Segundo estudo da UNICEF (2021), por exemplo, mais de 60% dos casos de estupro envolvendo crianças acontecem nas residências e, em sua grande maioria – mais de 80% desses crimes –, são cometidos por pessoas conhecidas por elas, o que se caracteriza como sendo uma violência predominantemente doméstica. 

Acontece que isso não só tem efeitos deletérios para as crianças – não que isso fosse pouco motivo –, mas tem efeitos também sobre as famílias que retomam sua vocação inscrita no mito freudiano de uma horda em que um soberano tem poder de vida e morte sobre os seus. Desvincular família, criança e espaço público é abandonar também as próprias famílias: “O evento dos filhos traz o risco de fechamento na própria família e de esquecimento da amplitude da coletividade, traz consigo o risco de que em nome da família se deixe de cuidar do mais amplo – que é condição de sobrevivência da família, inclusive” (Pires, 2023, p. 5).

Crianças sequestradas da vida em comunidade, vivendo em uma clausura familiar, em uma casa-cativeiro não só assombrada, mas, fundamentalmente, vigiada: essa espécie de matrimônio de irmãos, como propôs Cortázar, impõe um fim trágico. Trancados para fora dessa mesma casa que buscaram preservar a qualquer custo, os irmãos de “A casa tomada” não têm um mundo ao qual recorrer. Desamparados, desabrigados, sem um espaço que possam habitar, os personagens encontram-se, ainda assim, convictos da necessidade de mantê-la trancada, a salvo de algum pobre diabo a quem ocorresse entrar em uma casa tomada. 

Lembro-me de conversar com professoras de educação infantil, naquele momento de retorno às escolas após o isolamento mais severo por ocasião da pandemia de Covid-19. Era comum falarem que as crianças não sabiam mais brincar com as outras, se trombavam no pátio, como se não supusessem que mais alguém poderia estar ali. As professoras contavam que isso acontecia mesmo com crianças que tinham irmãos. Faltava-lhes, diziam as professoras, a escola. De fato, a escola tem essa função de fazer bascular o familiar como não sendo o saber único sobre a experiência da criança. Na escola, aprende-se a pensar acompanhado dos outros, sejam outros seres e outros colegas, sejam outros tempos. A escola tem essa vocação de ligar as crianças aos mundos, mas ela mesma não se basta. Até mesmo porque, para que uma escola seja esse espaço de encontro com a alteridade, é necessário preservar o espaço público, esse que estou chamando de rua ou, mais amplamente, de cidade, de mundo partilhado. 

Perec (1974/2001), em seu estudo sobre o espaço, escreveu: “A rua é o que separa as casas umas das outras e também o que permite ir de uma casa a outra, seja seguindo ou atravessando a rua” (Perec, 1974/2001, p. 79, tradução nossa). A rua põe os espaços da cidade em relação, elas podem estar favorecidas, obstruídas ou sem saída… Ainda assim, modos de relação entre espaços são tecidos por esse emaranhado mais ou menos organizado segundo planos urbanísticos – portanto, políticos. Como não ver aí o princípio da alternância, que une e separa ao mesmo tempo, permitindo caminhos singulares ao se usufruir de uma rede estruturada que sobredetermina sentidos? A rua como espaço comum, para além do Édipo, como sinaliza Zygouris (2017), possibilita o extrafamiliar, ou ainda, o “gozo de um saber que não se adquire no seio familiar” (Zygouris, 2017, p. 2).

O que nos resta diante dessa tensão pensada em termos de fechamento ao mundo em um núcleo familiar? Desconfiar. Desconfiar de que seja assim, de que a cidade e a rua sejam responsáveis pela perdição, de que a família seja salvação, de que haja salvação e perdição… Dialetizar essas certezas só pode ser feito habitando o espaço público e deixando que ele seja interrogado pela experiência infantil: o que fazem as crianças quando estão circulando pelas ruas, pelas praças, pelos parques? Se nada chama a atenção em um exercício de observação do espaço público, é porque não sabemos ver – como faz notar Perec (1974/2001).

Para concluir, quero trazer um breve relato que recolhi em uma experiência perrequiana de observação de uma criança em circulação na cidade: 

 

Vejo uma menina pequena caminhando de mãos dadas com uma mulher, subiam a rua. Estou entrando no carro e me demoro nos gestos para observar a cena. Vinha agasalhada, o dia estava frio, mas os cabelos molhados e os chinelos de dedo da pequena no meio da tarde me fizeram pensar que voltava da natação.

Uma das mãos estava firmemente entrelaçada na da adulta enquanto com a outra desenhava coreografias. A menina parecia cantar, falar consigo, com a árvore pela qual passou no caminho. O chinelo sambava no pé e ela aproveitava disso para variar o tamanho do passo, ora pequenino, ora um tanto maior. 

Durou menos de meio quarteirão, quase sessenta segundos o tempo que pude estar com elas na volta da natação, sim, agora já tenho certeza de que vinham da natação. Uma mão segurando na da adulta que mantinha o foco na calçada e outra a traçar voo de borboleta no ar.

 

Diferentemente de Dolto (1981/1996), não conversei com a dupla. Saía de um café onde estava lendo um livro de crônicas, um gênero tão próprio ao infraordinário urbano. Tudo isso compareceu nessa cena, estava nela com meu interesse e com minhas inspirações. Também estavam a rua com sua calçada larga e bem cuidada, a adulta que segurava com firmeza a mão da criança e que garantia que um caminho fosse percorrido com atenção e objetivo – provavelmente iam para casa – e a menina, desenhando um percurso com seu corpo que antes de sua passagem não existia. 

O infamiliar instiga a aventura humana: as crianças precisam da rua, espaço não totalmente regido pelo discurso familiar, onde experimentam a criação de si, do outro e da própria cidade.

[1]  Na edição da Escola da Letra Freudiana (Lacan, 1972-1973/2010), há uma nota de tradução que aponta para a homofonia, em francês, da expressão S2, que pode ser escutada tanto como S deux, S d’eux ou, ainda, est-ce d’eux, ou seja, respectivamente: S dois, S deles ou será deles.
[2] Este artigo derivou de uma fala que fiz na mesa que compartilhei com a colega e psicanalista Luciana Pires, que teve por tema disparador “A criança, a casa e a cidade”, no VII Colóquio de Psicanálise com Crianças, promovido pelo Departamento de Psicanálise com Crianças do Instituto Sedes Sapientiae, ocorrido em outubro de 2024.
[3] O[s Ou]tros, no destaque se lê: sou.

referências

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Cortázar, J. (1951) Bestiario. Buenos Aires: Punto de lectura, 2008.

Didier-Weill, A. (1995) Os três tempos da lei: o mandamento siderante, a injunção do supereu e a invocação musical. Trad. A. M. Alencar. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997. 

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Paula Fontana Fonseca

Psicanalista. Doutora pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). Autora de livros e artigos no campo da psicanálise e educação, atua como psicóloga no Serviço de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da USP, como pesquisadora junto ao Laboratório de Estudos e Pesquisas Psicanalíticas e Educacionais sobre a Infância (LEPSI) e é uma das coordenadoras do projeto de extensão interinstitucional “Criancidade”. paulafontanafonseca@gmail.com