06_Ocupação Lesbianidades e Psicanálise – Biblioteca Mário de Andrade

Joana Manassés Penteado

15 de agosto de 2025

Este texto foi apresentado no evento Ocupação Lesbianidades e Psicanálise na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo (SP), durante o lançamento da Revista Cult de agosto sobre o mesmo tema, ocasião em que fui convidada como editora e em que também participei como autora. 

Esta produção também é fruto do encontro com o Travessias Lésbicas, um grupo de psicanalistas que, sob os significantes lésbicas e psicanalistas, trabalha articulações derivadas dessa intersecção.

Quando o convite para a primeira reunião das terças-feiras do Travessias Lésbicas me chegou por uma amiga, por quem tenho grande apreço, logo fui tomada por uma empolgação que não conhecia. Embora já me soubesse lésbica há tempos, não me sentia convocada a estar entre pares pelo viés da identidade. Interpelada pelas discussões no campo da psicanálise, a centralidade da experiência particular de lesbianidade, em alguma medida, sempre acompanhou minha escuta e minha análise. 

A experiência de uma análise, para que se possa dizer de si, é necessária, mas não é suficiente para nomear uma recorrência do que se passa na clínica. Por isso, é fundamental que se interrogue o dispositivo.

Proponho que, em um primeiro momento, possamos pensar sobre a dimensão do que acontece no consultório. Considerando que a análise é um dispositivo que interroga o sujeito a saber de si através de perguntas, é importante indagarmos se quem opera esse dispositivo tem condições de conduzir eticamente o percurso que um analisando faz, de modo a sustentar perguntas que não o atrapalhem a saber de si. Se tal analista não conta com a possibilidade de uma chave de leitura para além da heteronormatividade, que condições ele tem de escutar um sujeito que se conta desde outro lugar? A suposta neutralidade do analista precisa ser indagada também.

Por que será que recorrentemente alguns analistas insistem em supor que uma lésbica está respondendo a um sintoma? Que Freud fez isso atrapalhadamente, no meio das acertadas de seu pensamento, em outro século e em outro continente, a gente sabe. Mas por que raios há sempre a suposição de uma ordenação do desejo passando pela heteronormatividade e patologizando as dissidências? O que isso nos diz? Lesbianidade é sintoma e heteronormatividade é referente? Que universal é esse que funciona quase como igreja? Ah, a tal neutralidade…

Há experiências do tempo, do espaço e do corpo que, muitas vezes, não fazem código para quem as escuta. Nos encontros com o Travessias Lésbicas, tem sido possível decantar um comum do que experimentamos na clínica tanto como analistas quanto como analisandas. E, com isso, podemos reconhecer que, muitas vezes, essas são experiências com efeitos violentos. 

Quando isso se torna um problema no manejo de uma análise? Como um analista pode escutar algo da particularidade daquela experiência de história de corpo, se não suspender seus a priori para oferecer seu dispositivo como função, sustentado por uma ética? Que possamos nos perguntar, novamente e quantas vezes forem necessárias, acerca da aposta em uma psicanálise que sobreviva ao tempo e ao espaço, sobre uma suposta neutralidade. E sobre sua relação com A Universal, em maiúscula e não barrada.

Quando não se reconhece a lesbianidade como um laço amoroso válido que se faz de outro jeito, ela está suposta como adjacente, como simulacro da heteronormatividade. No texto “A carta e piano”, do Dossiê da Revista Cult, trabalhamos a transmissão a partir da função da carta através da metáfora do piano e de sua relação com o tempo.

O que se faz quando a mensagem é dada e não há ouvidos para escutar? O que se decanta dessa experiência de não-escuta e o que se produz dela? 

 

O próprio movimento da carta cria uma imagem de como a dinâmica psíquica se inscreve: quando o que retorna é uma marca da qual já temos notícias, algo provoca um movimento de retroação…] que permite nomeá-la, para que dali em diante, se possa deslocar com um referente sabido (Dias & Penteado, 2025, p.35). 

 

Nomear uma experiência permite que se dê um contorno a ela. Se um dito é marcado, circunscrito, manejado em uma análise, como desdobramento, pode-se apostar na reescritura da própria história e algo novo pode advir com a marca que a palavra faz.

Nomear não é pouco, mas é preciso ir além. 

Muitas vezes, é preciso algo da ordem do reconhecimento para que a palavra seja suporte de um dizer que se articula pelos significantes que se enlaçam em um “nós”, sem conjunto, mas a fazer laço: lésbicas e psicanalistas. 

O burburinho e o barulho que a junção desses dois significantes, que esse evento e essa revista estão fazendo revela uma contradição interessante: de um lado, psicanalistas se indagando do que se trata – o que elas estão fazendo? – e, de outro, a comunidade sapatão, que tão pouco aparece aos olhos de quem não pode ver, lota um auditório. O que isso nos diz?

Lacan diz: o inconsciente é o social. Então é preciso curar o social em nós, com a polissemia que isto implica.

Antes de seguirmos, quero trazer dois exemplos.

Sob uma leitura heteronormativa, tem algo que é recorrentemente lido como esquisito em uma namorada passar o Natal com a família de sua ex-namorada e com a presença da atual, sob uma ótica que se utiliza de uma hierarquização e de uma lógica do OU, que é a lógica do Um para sustentar seus arranjos.

Outro exemplo: um trisal de amigos foi a um stand up comedy. O homem que fazia o show resolveu falar com eles para articular sua criação. Os três só pronunciaram seus nomes: Fulana, Fulana e Fulano. Por conta própria, ele articulou sua piada a partir de um repertório suficientemente universalizado a priori para que todos pudessem rir. O humorista diz algo como: “quem foi o casal original? Quem foram Adão e Eva da relação?”. Eles respondem: “Fulana e Fulano”. E o humorista engaja: “elas são meio parecidas, né? Ele tem fetiche em meninas que se parecem. Eu queria muito ver uma foto da sua mãe para ver um negócio”. Tudo dirigido ao homem. Como se tal trisal se configurasse, sob sua suposição, com o homem na centralidade da regência ordenadora. 

Você percebe o que estou falando quando proponho que as pessoas possam melhorar suas ferramentas de escuta? Aqui é um humorista, mas poderia ser um analista, como muitas vezes o é. 

Há também outros fenômenos que organicamente se repetem entre as experiências lésbicas, de diversas regiões e gerações, como, por exemplo, o rebuceteio: afinal, que sapatão nunca tomou cerveja na mesma mesa com algumas ex e com a atual que também namorou a outra ex? O texto “Do rebuceteio ao divã” (Fernandes, Renaux & Tanure, 2025), do Dossiê que lançamos este ano, da Revista Cult, trata disso, recomendo.

Contudo, o que uma leitura que toma a heteronormatividade como referente perde ao interpretar essas cenas é que elas e muitas outras revelam algo sobre outros laços possíveis, que não passam necessariamente pelas mesmas ordenações. E, assim, rapidamente perde-se a possibilidade de questionar: que contribuições os efeitos de outros feitos produzem? O que as lesbianidades revelam ao costurar outras formas de fazer comunidade, de construir famílias?

Enfim, cabe a pergunta: como as lesbianidades trepidam os assoalhos frouxos do patriarcado em nós e em sua efetividade, na vida concreta das pessoas? Tem algo aí a ser escutado como modo de laço, né? Não é disso que se trata a transmissão? Através de um dizer que suporte o vazio e, ao mesmo tempo, que sustente a escrita de uma escuta? Através da possibilidade de letramento, quando ainda não se tem, que viabilize construção de repertório, inscrição simbólica do que é sistematicamente apagado?

O que há de fecundo nestes nós que derivam de outra ordenação? Como transmitir um dizer que permita operar uma função a partir de um nós que não faz conjunto? Que se possa deixar à mingua o que rege a norma, que é da heteronorma. 

A história das dissidências não cansa de demonstrar como elas deslocam referentes e tecem outros modos de vida, se servindo do lugar apartado das organizações discursivas heteronormativas. Há outros modos de amar que produzem outros desdobramentos na articulação do desejo. Deslocar a heteronormatividade da pré-suposição reverbera na clínica e atravessa o modo como a teoria psicanalítica lê as ordenações simbólicas – o que me faz parecer possível uma escrita desde outro ângulo.

Retomar a psicanálise a partir do território onde a vida acontece, ao que me parece, para um dizer de corpo e por onde ele circula. Habitar esse tempo-espaço de dizer. Produzir enfrentamento aos modos de uma tecelagem. Estar à margem nos dá borda e borda faz litoral.

referências

Dias, J. & Penteado, J. M. (2025) A carta e piano: o amor lésbico e a transmissão em psicanálise. Cult – Lesbianidades e Psicanálise, São Paulo, n. 320, agosto de 2025, p. 34-37.

Fernandes, A. C. O., Renaux, F. & Tanure, L. M. (2025) Do rebuceteio ao divã: notas sobre a escutabilidade em psicanálise. Cult – Lesbianidades e Psicanálise, São Paulo, n. 320, p. 22–26, ago. 2025.

Joana Manassés Penteado

Psicanalista, mestre em psicologia social pelo núcleo Psicanálise e Sociedade PUC-SP, integrante no AGE (Ambulatório de Generidades) IP-USP.