03_O desejo de analista na clínica com crianças

Renata Petri

Este artigo foi originalmente escrito para uma jornada teórica sobre a obra de Rosine e Robert Lefort proposta pelo Núcleo de Ensino e Pesquisa em Psicanálise com Crianças (NEPPC), grupo de analistas reunidos em torno da clínica psicanalítica lacaniana com crianças, que trabalhou junto no período de 2006 a 2013. Dele, fizeram parte também as colegas que assinam o presente número da revista Traço, Ilana Katz e Daniela Teperman. Esse Núcleo de trabalho se originou de um primeiro grupo de estudos coordenado pelo psicanalista Domingos Paulo Infante, analista a um só tempo rigoroso e insurrecional, teórica e clinicamente. Após dois anos, além de seguir com nossos estudos e discussões clínicas, passamos a propor atividades para outros analistas, um curso sobre psicanálise com crianças, sessões clínicas, grupos de estudos de textos fundamentais da psicanálise, jornadas, entre outros.

Reencontrar o Domingos nesta publicação da revista Traço em torno da psicanálise com crianças é um enorme prazer, afinal, estar ao seu lado durante os anos de existência do Núcleo marcou definitivamente minha formação como analista.   

A jornada para a qual este artigo foi escrito intitulou-se “A criança é um analisante de pleno direito”, afirmação contundente encontrada ao longo da obra de Robert e Rosine Lefort e que orienta meu posicionamento como analista.

Afirmar que a criança é um analisante de pleno direito implica diretamente o “lugar-função desejo de analista”. Rosine e Robert Lefort eram categóricos ao dizer que não há especificidade em relação ao desejo de analista na clínica com crianças. Tanto quanto para o adulto, essa clínica se sustenta no princípio ético de que aquele que sabe é o analisante-criança, caso contrário o dispositivo analítico se desviaria para uma psicoterapia e para um fechamento da escuta em direção à dimensão da pulsão. No entanto, na história da psicanálise com crianças, temos muitos exemplos de analistas que se lançaram ao lugar de mestres de seus pacientes, acreditando ser necessário transmitir seu saber sobre o mundo para a criança, e de analistas que tomaram a criança como objeto de sua própria fantasia: ambas as ofertas levaram a uma atenção privilegiada ao desenvolvimento em detrimento do sujeito em análise. Neste sentido, parece-me bastante relevante esclarecer e discutir como se apresenta o desejo de analista na clínica com crianças, visto que a posição do analista na condução de um tratamento é o elemento central a partir do qual todos os outros se articulam. 

Para que um sujeito seja causado, é preciso que um adulto, no lugar de Outro primordial, tome-o na sua fantasia e lhe transmita seu saber sobre o mundo. Mas essa não é a tarefa do analista! Não cabe ao analista dar à criança tudo o que ela precisa, suprir suas carências, mas sim criar condições para que possa atravessar seus impasses e construir um saber-fazer com as marcas que a singularizam. Costumo dizer que estas são obviedades teóricas, mas não clínicas, pois tomar a criança como objeto de gozo é uma tentação sempre presente, e é o desejo de analista que opera a interdição.

O desejo de analista corresponde a uma função lógica que possibilita ao analista dirigir o tratamento, uma vez que lhe permite ocupar o lugar de suporte do objeto causa de desejo para o analisante. A assunção de um determinado lugar permite o exercício dessa função, daí a expressão “lugar-função desejo de analista” (Petri, 2008). Tal função orienta o analista a se presentificar como objeto que toca o sujeito, suscita a fala e possibilita o desfilar do desejo pelo significante, aplacando, assim, o sofrimento gerado pelo represamento do gozo no sintoma. Ocupando tal lugar, o analista deixa desimpedida a via de acesso do analisante à dimensão alienante do desejo – desejo do Outro – e permite entrever, desvelar o objeto causa de desejo.

O desejo de analista, portanto, não é desejo do Outro; ao contrário, deve apontar justamente para a inconsistência desse Outro.

Torna-se óbvio que o desejo de analista não se refere ao desejo da pessoa do psicanalista, mas exatamente a seu dever analítico, essencialmente ético, de calar o próprio desejo enquanto sujeito, resguardando o lugar vazio que permite ao paciente demarcar o objeto de seu desejo. Lacan (1959/60) qualifica o desejo de analista como desejo prevenido: propõe que, assim como o analisante, o que o analista pode dar nada mais é do que o seu desejo, com a diferença de que se trata de um desejo prevenido. E se pergunta: o que pode ser um tal desejo, o desejo de analista? Responde, na negativa, o que ele não pode ser: não pode desejar o impossível. Sabemos que o impossível, para Lacan, remete à ilusão de complementaridade, trabalhada a partir de aforismos como: não há relação sexual e não existe Outro do Outro. O desejo de analista deve permitir o acesso do sujeito a essa verdade.

Como então sustentar o lugar de desejo de analista diante de uma criança? Como o analista pode se fazer parceiro da criança sem se tornar seu mestre, sem gozar às suas custas, abdicando de seu próprio saber sobre o mundo?

A possibilidade de sustentar o desejo de analista diante da criança remete à capacidade do analista de ocupar um lugar de “abnegação subjetiva” que lhe permita operar com o desejo liberto de sua fantasia, posição nada fácil diante da criança, uma vez que, como já dissemos, o risco de tomá-la como objeto de gozo é especialmente tentador.

A “abnegação subjetiva” deve ser entendida como desembaraço em relação à própria fantasia, como desprendimento do próprio desejo, não no sentido de sacrifício ou de altruísmo, o que poderia também sugerir.

No encontro com o analista, a criança se depara com um outro Outro que não lhe deseja nada em específico, a não ser que persiga suas próprias questões para o desvelamento do desejo, tornando o sintoma menos essencial, com a consequente drenagem do gozo ali retido, possibilitando, assim, a retomada da construção de suas ficções na direção de poder sustentar o encontro com a inconsistência do Outro e com a incomensurabilidade entre o sujeito e o Outro. O desejo do analista introduz e sustenta justamente a falta no Outro. A clínica não cessa de demonstrar que isso tem um efeito apaziguador para o sujeito; afinal, é nessa brecha que ele pode se alojar.

O analista intervém, então, a partir de um duplo lugar: semblante de objeto a e Outro. Na transferência, o analista é convocado no lugar de Outro, cabendo-lhe suportar tal lugar sem deixar-se tomar por ele, possibilidade que se apresenta condicionada ao operador desejo de analista. Dito de outra forma, o analista sustenta o lugar de Outro, porém sem encarná-lo. Diferentemente dos pais, o analista se baliza pelo desejo de analista, não desejando nada em específico à criança para que ela possa prosseguir na elaboração de suas próprias questões. Nesse sentido, o analista tende a ocupar o lugar de semblante de objeto a, abrindo espaço para a enunciação da criança. O lugar do analista oscila entre o lugar de Outro e de objeto a, sempre vetorizado para esse último.

O analista suporta a função do Outro, mas não se identifica com ele, justamente a fim de levar o sujeito para além dos impasses da intersubjetividade, na direção de achar uma saída para a dimensão alienante do desejo.

Rosine Lefort (1980) se refere a sua posição na transferência durante o tratamento de Nádia da seguinte maneira: “eu a sigo de perto ou a precedo de pouco” (p.26). Este é um modo à la Rosine de situar a báscula que o analista faz na condução do tratamento de uma criança. Quando a segue de perto, está no lugar de objeto que provoca o movimento do sujeito; quando a precede de pouco, se oferece como semblante de Outro, fazendo uma oferta balizada pelo trabalho analítico em jogo. Não considero que essa seja uma particularidade da clínica com crianças, no entanto, a psicanálise com os pequenos põe em relevo este ponto pelo fato de o Outro, na infância, aparentar ser mais consistente, já que está encarnado na figura dos adultos responsáveis pela criança.

Falemos um pouco, agora, sobre o desejo em jogo na constituição do sujeito. Os adultos1 que se ocupam do filhote humano exercem uma série de funções na direção de criar as condições necessárias para o advento de um novo ser de linguagem. Aprendemos com Lacan (1969), na famosa “Nota sobre a criança”, que a constituição subjetiva se dá a partir de uma transmissão irredutível, feita por esses agentes de linguagem, que articula basicamente dois termos: um desejo não anônimo, transmitido e sustentado por um sujeito no exercício da função materna, implicado nos cuidados com o bebê, que lhe oferece palavras para que possa se nomear, repertório ao qual o bebê se aliena para sobreviver; e, ao mesmo tempo, uma função separadora, paterna, que regula e legisla a impossibilidade de complementaridade entre sujeito e Outro.

O agente da função paterna transmite à criança uma forma viável, possível de satisfação no mundo, ao dar o testemunho de qual foi a maneira que encontrou, na sua própria vida, para obter satisfação, maneira que inclui, em alguma medida, a criança em questão na sua trama desejante, mas que não a toma como principal objeto de satisfação. Dessa forma, realiza o delicado e necessário entrelaçamento entre o interdito e o desejo, oferecendo parâmetros que podem servir como verdadeiros pontos de referência para o sujeito e que abrem o caminho para a constituição do próprio desejo. É por meio dessas operações que os adultos realizam uma preciosa e singular transmissão que serve ao engendramento de um sujeito, criando as condições de possibilidade para a criança construir sua resposta diante da enigmática pergunta: “o que o Outro quer de mim?”. O adulto pode transmitir para a criança a relação com a lei do desejo justamente porque ele próprio não é a lei. Noutros termos, o adulto testemunha para a criança uma versão possível de relação com a causa do desejo, a sua própria versão. É a transmissão de um saber sobre a falta ou, ainda, um saber-fazer com a falta.

É de fundamental importância que o adulto que tem uma implicação com o bebê que chega ao mundo, agente da função materna, que sustenta esse desejo não anônimo, seja tomado também em outras tramas desejantes, como objeto de desejo do parceiro sexual, por exemplo, o que contribui para a introdução do sujeito no campo do Outro, ao invés de ficar restrito ao campo materno. Se o desejo do Outro primordial não permitir este acesso ao campo do Outro, a criança estará em maus lençóis. E aqui podemos pensar em duas possibilidades: quando o desejo do Outro primordial não está regulado pela lei paterna, o sujeito fica preso aos nomes oferecidos pelo adulto em questão; o cenário é outro quando o Outro da criança é anônimo, ou seja, quando não há um desejo que toma a criança como objeto, neste caso, o sujeito não recebe os nomes a partir dos quais poderia se situar no campo do Outro.

O desejo regulado pela lei paterna deve ser uma ponte, uma passagem para a criança em relação ao próprio desejo: o Outro primordial oferece os nomes e o sujeito vai se servir deles para se dizer. Assim, se faz o passe do desejo. Ou seja, se introduz a criança no campo do Outro com o próprio desejo como bússola.

O encontro das articulações teóricas sobre o desejo de analista e sobre a constituição subjetiva com o trabalho de Rosine Lefort permitiu construir a leitura de que o desejo de analista também não é anônimo! Claro, é um desejo, logo, não há anonimato! Como diferenciar desejo de analista de desejo do Outro primordial? 

Primeiramente, é importante situar que as quatro crianças atendidas por Rosine Lefort, cujos relatos foram publicados, incluindo as articulações teóricas realizadas a posteriori pela autora, eram institucionalizadas. Naquela época, estar em instituições frequentemente significava estar diante de um Outro anônimo que não endereçava um desejo à criança, um Outro institucional.2

Nessas situações em que o Outro que se ocupa da criança é anônimo, situações que podem levar ao quadro conhecido como hospitalismo, o corpo da criança é tomado como um objeto a ser alimentado, limpo, trocado, sem que se criem as condições mínimas necessárias para a constituição psíquica. Sabemos que, para a armação do circuito pulsional, leito de todas as construções que virão a articular o sujeito em constituição com o mundo, é preciso um outro de “carne e osso” implicado com este corpinho. Como diz Lacan (1975/76) no Seminário 23, intitulado O Sinthome:

As pulsões são, no corpo, o eco do fato de que há um dizer. Esse dizer, para que ressoe, é preciso que o corpo lhe seja sensível. É um fato que ele o é. Porque o corpo tem alguns orifícios, dos quais o mais importante é o ouvido, porque ele não pode se fechar. É por esse viés que, no corpo, responde o que chamei de voz.O embaraçoso é que, certamente, não há apenas o ouvido, e que o olhar lhe faz uma iminente concorrência (Lacan, 1975/76, p. 18-19).

Um dizer pressupõe um sujeito em posição de enunciação, articulando um gozo ao falar, endereçando-se ao pequeno ser.

Não é coincidência que, nos casos tomados em análise por Rosine, proliferavam episódios de otite, mastoidite, otorreia, diversos adoecimentos no ouvido de um ser na tentativa de se virar sem o chamado de um Outro.

Há uma passagem muito bonita, no início do caso Nádia, criança bastante adoecida no corpo, sobretudo no ouvido, em que Rosine Lefort (1980, p. 9) relata: “No seu rosto de velha precoce, não resta mais que um olhar desolado, patético, que ela me lança quando eu a deixo. É este olhar que me trará de volta, que começará uma aventura analítica pra ela e para mim e que me tornará analista”.

Outro fenômeno recorrente que descreve bem o efeito do anonimato dos cuidados aos quais estavam submetidas essas crianças, cujo funcionamento corporal respondia apenas a um saber anônimo que faz mandato (“come”, “vá pro penico”, “dorme”, sempre dirigido ao grupo de crianças), é o que Rosine chamou de sintoma psicossomático de bulimia. O saber anônimo e isolado que vem do Outro tem efeito de real e a criança abre a boca para o alimento como um objeto real, sem nenhum parentesco com o objeto de dom, já tomado nos registros imaginário e simbólico. Há um desinvestimento total no alimento porque o sujeito está sem Outro. Ocorre, assim, um desmoronamento do sujeito enquanto desejante, um sujeito passivo, muito diferente do anoréxico, ativo em sua recusa do objeto, uma vez que é a angústia do Outro que está em questão, portanto o seu desejo. Na bulimia, no entanto, o objeto oral cai no real, não pode aceder ao significante, não é mais do Outro. 

Rosine Lefort passou a conduzir a análise dessas crianças apoiada exclusivamente na transferência com a criança, o que dimensiona a operatividade da transferência e, consequentemente, do lugar-função desejo de analista. A demanda dos pais, o trabalho de implicação que requer a transferência que ali também se arma, é um trabalho a mais a que tem que se dedicar o analista para salvaguardar o espaço analítico com a criança. Rosine não se deparou com este “a mais”. Tal particularidade contingencial de seu trabalho não lhe serviu para confundir sua posição com a do Outro parental, nem para se condoer com a situação das crianças, mas justamente para operar um esclarecimento em relação ao fato de o analista não responder ao que falta à criança, e sim de se oferecer e de se sustentar com convicção no lugar de semblante do objeto causa de desejo.

No caso Nádia, Rosine dá uma pista sobre o que entende como desejo de analista:  endereça ao sujeito em análise uma base gramatical sobre a qual uma construção pode se dar, um “tu és… sem atributo”. É com esta frase, “tu és…”, que ela nos deixa saber como sustentou a direção do tratamento e, consequentemente, a causação psíquica de crianças tão pequenas e em grave sofrimento. Ou seja, para crianças diante do Outro anônimo, a resposta de Rosine não foi criar a ficção de um Outro primordial, tomá-las em sua fantasia e, portanto, em seus nomes. Rosine respondeu com o desejo de analista, para que cada criança pudesse se dizer. Para isso, ela não se colocou no lugar do cuidador, manteve-se afastada das manipulações do corpo de seus pequenos pacientes, crianças até então “manipuladas sem serem faladas” (p.10).

Dirigir o “tu és… sem atributos” ao analisante remete à ideia de que o sujeito suposto saber, elemento ternário na relação analista-analisante, suporta um analista suposto desejar: o analista arma uma frase na qual quem irá atribuir o predicado será o próprio sujeito, mas não sem essa sustentação. O saber está do lado do sujeito, mas é o analista que o provoca, que o causa, na medida em que sustenta, na transferência, o lugar de suporte do objeto causa de desejo. O “tu és” dirigido pelo Outro primordial, por outro lado, deve necessariamente oferecer atributos.

E, assim, voltamos à diferença entre o desejo do Outro primordial e o desejo de analista. O não anonimato se configura de modo diferente nos dois campos: o desejo do adulto em posição de Outro primordial propõe um lugar para a criança na sua fantasia, a criança é tomada como objeto pelo seu Outro que nomeia as experiências vividas a partir de seu recorte fantasmático; no caso do analista, o desejo tampouco é anônimo, mas a criança não é tomada como objeto na sua fantasia.

O analista não é um Outro anônimo, seu fazer também não é anônimo, porque está orientado por um desejo, mas um desejo prevenido, advertido de que não cabe a ele tomar a criança em seus nomes. O não anonimato do desejo de analista não passa pela fantasia do sujeito que está na função de analista. O analista não oferece seus nomes, mas cria as condições para que o sujeito possa operar suas próprias nomeações, “tu és…”, e chegar mesmo a realizar nominações.

Trabalhamos, no Núcleo (NEPPC), a diferença entre nomeação e nominação. A nomeação seria algo que se dá dentro do cenário edípico, necessária e sempre dentro de uma dimensão fantasmática, articulada a um gozo fálico. Já a nominação seria da ordem de uma invenção do sujeito que aponta para fora da fantasia, que requer certa experiência com a inconsistência do Outro e que remete à dimensão de um significante fora de um saber já estabelecido.

A clínica psicanalítica com crianças nos coloca frequentemente diante de sujeitos que enfrentam impasses na própria constituição subjetiva e que convocam o analista a criar as condições necessárias para que o tratamento aconteça, o que nos permite avançar um pouco mais em relação ao lugar que o analista ocupa no tratamento. Ainda que o operador desejo de analista sustente que o analista não tome a criança no lugar de seu objeto de gozo, o analista precisa se apresentar como desejante. Dito de outra forma, diante desses sujeitos, torna-se de fundamental importância que o analista dê um testemunho de sua relação desejante no mundo, de seu saber-fazer com a falta, certamente com outros objetos que não a criança. Mas, mesmo aqui, o modo de se apresentar é uma estratégia clínica, regulada pelo desejo de analista, visando fisgar o desejo da criança e poder recuar, para que ela possa encontrar ou produzir os próprios nomes.

Pergunto, então: o que se transmite numa análise com crianças, afinal?

O vazio necessário à realização da falta inscrita no Outro. Mas, se é assim, qual seria a diferença entre a transmissão feita numa análise e aquela realizada pelos adultos que sustentam as funções materna e paterna, uma vez que ambas remetem à transmissão da falta? Qual a diferença entre esses dois modos de transmissão?

Os agentes das funções materna e paterna transmitem a falta a partir de suas próprias posições fantasmáticas, ou seja, versões singulares de como puderam, em suas vidas, lidar com a inconsistência do Outro. Noutros termos, a falta assim transmitida está fundamentada no testemunho de um saber particular sobre como as figuras parentais arranjaram-se com a incompletude intrínseca à condição humana.

O analista, por sua vez, ocupa-se em também transmitir esse vazio, mas, orientado pelo desejo de analista, opera a partir da posição de “abnegação subjetiva”, procurando justamente manter-se desembaraçado da própria fantasia para permitir, promover e sustentar a construção de uma resposta própria por parte do sujeito, que então pode articular, de maneira renovada, os elementos que já se encontram presentes como resultados da transmissão simbólica operada pelo Outro parental. Ou, mais ainda, construir ou inventar outros termos a partir dos quais se situar no mundo. Produzir seus próprios nomes.

[1] Reescrevi algumas passagens deste texto, escrito originalmente em 2013, no sentido de precisar que o importante em relação aos adultos que se ocupam das crianças é como se posicionam e como exercem suas funções materna e paterna, independentemente de serem ou não os genitores, de seus laços sanguíneos, de seus gêneros ou de suas orientações sexuais, mal-entendidos comuns nos textos psicanalíticos até pouco tempo atrás, que urgem serem esclarecidos.

[2] É interessante recuperar que a “Nota sobre a criança”, escrita por Lacan em 1969, endereçava-se a Jenny Aubry, pediatra que mantinha uma instituição de internação temporária de crianças, onde Rosine Lefort realizou seus atendimentos. Pensar sobre as crianças institucionalizadas foi o que provavelmente levou Lacan a enfatizar a ideia de desejo não anônimo, afinal, o Outro estar presente não seria garantia de que ele se engajasse pela via do desejo; para isso acontecer, seria necessário um endereçamento.

referências

Lacan, J. (1959/60) O seminário, livro 7: a ética da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1988.

Lacan, J. (1969) Nota sobre a criança. In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003.

Lacan, J. (1975/76) O seminário, livro 23. O sinthoma. Trad. Sérgio Laia. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editor, 2007.

Lefort, R. & Lefort, R. (1980) Nascimento do Outro. Duas psicanálises: Nádia, 13 meses, Marie-Françoise, 30 meses. Trad. A. Jesuíno. Salvador: Biblioteca Freudiana Brasileira, 1984.

Petri, R. (2008) Psicanálise e infância. Clínica com crianças. Rio de Janeiro: Cia de Freud; São Paulo: FAPESP, 2008.

Renata Petri

Psicanalista, mestre e doutora pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), autora dos livros Psicanálise e educação no tratamento da psicose infantil: quatro experiências institucionais (São Paulo: Annablume; Fapesp, 2000) e Psicanálise e infância: clínica com crianças (São Paulo: Companhia de Freud, Fapesp, 2008), além de alguns artigos em revistas, como Desejo, amor e sexo na adolescência, volume Tempo, da coleção Parentalidade e Psicanálise.