Heidi Schlipphacke[2]
Trad.: Paulo Sérgio de Souza Jr.
se a teoria psicanalítica está correta ao afirmar que todo afeto de uma emoção, independentemente do tipo, é metamorfoseado em medo por meio do recalcamento, então deve haver um grupo, entre os casos do que é medonho, no qual se possa mostrar que, ali, medonho é algo do recalcado que retorna. Esse algo medonho seria justamente o incômodo (Freud, 1919/2021, p. 93)Ali, após muitas digressões, Freud retorna a um modelo para pensar o incômodo; um modelo que, tradicionalmente, inspirou a teoria de base sobre o trauma: é o retorno do passado recalcado que gera um medo baseado no temporário aplanamento de uma ordem topográfica e cronológica. O que está embaixo sobe à superfície e o que era passado entra no presente. O modelo é igualmente evocado na famosa carta que Freud enviou a Ferenczi em 12 de maio daquele mesmo ano, na qual escreveu que havia desengavetado um antigo texto, um texto que se tornou “O incômodo”.[5] Aqui, o passado mais uma vez insiste em retornar do submundo para ver a luz do dia. O modelo topográfico de profundidade une-se ao modelo do trauma, no qual o passado se impõe em nosso presente. As repetidas tentativas freudianas de reinserir um modelo topográfico de profundidade em sua discussão acerca da particular modalidade de medo que ele chama de “incômodo”[6], no entanto, desviam o leitor de algumas das mais convincentes reflexões que o ensaio oferece acerca do medo. De fato, embora tendamos a nos concentrar no modelo de profundidade que localiza o trauma no passado, o ensaio freudiano aponta igualmente para elementos de duplicação (Doppelgänger), de substituição (Ersatz) e da coincidência de aparentes opostos. Numa anedota pessoal particularmente fascinante localizada em uma nota de rodapé da terceira seção, Freud relata a experiência de sentir-se importunado por um senhor mais velho de pijama, um duplo que parece surgir em seu vagão-leito, até que ele se dá conta que esse desagradável senhor é um reflexo de si mesmo no espelho: “lembro-me de que o fenômeno me desaprouve profundamente” (Freud, 1919, 2021, p. 106). A sensação incômoda é aqui desencadeada por um resvalo entre si-mesmo e outro, pelo esmaecimento das fronteiras entre os dois. De fato, no ensaio de Freud, vemos repetidas vezes o resvalo entre supostos opostos e o aplanamento da diferença. Em sua discussão inicial sobre o desenvolvimento etimológico do conceito de unheimlich, Freud chega à famosa conclusão de que heimlich e unheimlich estão, na verdade, intimamente ligados: “logo, heimlich é uma palavra cujo significado se vai desdobrando na direção de uma ambivalência, até que por fim coincide com o seu antônimo, unheimlich” (Freud, 1919/2021, p. 64)7. Os opostos colapsam um no outro; as fronteiras se confundem. Aqui, como nos exemplos do duplo, é crucial a ambivalência, o resvalo entre si-mesmo e outro. A “falta de orientação” e a “insegurança psíquica” que caracterizam as sensações de incômodo, segundo Jentsch, são prefiguradas na análise inicial freudiana da relação simbiótica, até mesmo tautológica, entre heimlich e unheimlich. Portanto, talvez a rejeição de Freud à compreensão jentschiana do incômodo seja, ela própria, um produto da angústia de influência, um medo que se assemelha às sensações incômodas de quando o duplo se revela uma versão distorcida do si-mesmo. O modelo horizontal e multiplicador da duplicação incômoda e do espelhamento impreciso retorna novamente na forma do Ersatz8 — outro movimento que, em seu ensaio, Freud associa ao incômodo. Em particular, Freud insiste que o temor de possíveis danos aos olhos é uma substituição do medo de castração: “o estudo dos sonhos, das fantasias e dos mitos depois nos ensinou que o medo em relação aos olhos, o medo de ficar cego, é muito frequentemente um substituto do medo da castração” (Freud, 1919/2021, p. 73). O temor de que os olhos sejam feridos é, portanto, um substituto de outro temor, o da castração. Temor substitui temor, medo substitui medo. Embora o temor da castração ocupe um lugar central no pensamento freudiano, como motor de uma sociedade civilizada — a lógica por trás da cultura9 —, a sua lógica não é, em última análise, mais significativa que a de qualquer outro temor abstrato. Se o temor de perder um olho ou a visão substitui o temor de perder o pênis (Kastrationsangst), então o temor de perder o pênis substitui o temor de perder um olho. A Angst paira, nesse sentido, na superfície. O seu ostensivo objeto de preocupação não é o pênis ou o olho per se, mas a própria perda. O incômodo freudiano está, portanto, mais relacionado com a superfície que com as profundezas, e o modelo de profundidade para pensar o trauma fica potencialmente prejudicado. De fato, o temor de duplos distorcidos, de fronteiras esmaecidas e do próprio temor está igualmente mais orientado para o futuro que para o passado — o ponto temporal em que reside o trauma. Nesse sentido, a noção de um lúgubre retorno do recalcado, que dominou as recepções leigas do conceito de incômodo, é complicada diversas vezes no ensaio de Freud. De fato, se lemos “O incômodo” juntamente com o trabalho freudiano posterior acerca do medo, o modelo de profundidade para pensar o medo incômodo e o medo traumático é igualmente colocado em questão. Em sua vigésima quinta conferência sobre a psicanálise, intitulada “O medo” (“Die Angst”), Freud escreve que o medo é uma espécie de moeda universal que significa independentemente do seu conteúdo: “o medo é, portanto, a moeda universal corrente, pela qual são ou podem ser trocadas quaisquer moções afetivas, quando o conteúdo representacional a elas ligado foi submetido ao recalcamento” (Freud, 1915-16/2014, p. 534; trad. modificada). Aqui, Freud entende o medo como uma resposta ao recalque, como aquilo que emerge após ocorrido o processo de recalcamento. O conteúdo do medo é, segundo ele, irrelevante. Como uma moeda que pode ser usada em qualquer lugar, o medo significa da mesma maneira, seja ele produto de agressividade ou amor. Esse ponto é reiterado por Freud numa conferência posterior sobre o medo intitulada “O medo e a vida pulsional”, de 1932-33. No entanto, depois de nela reiterar alguns dos argumentos da palestra anterior, Freud oferece a marcante afirmação que ameaça derrubar a estrutura profunda do trauma e do recalcamento. Como resultado de novas pesquisas, ele conclui que o medo não é resultado de desejos recalcados — um investimento libidinal que é recalcado (isto é, o desejo pela mãe que é recalcado e então transformado em temor do pai). Em vez disso, ele escreve: “não é o recalcamento que cria o medo, este é anterior; o medo faz o recalque!” (Freud, 1932-33/2010, p. 230; trad. modificada). O amor do menino pela mãe o amedrontava, e esse perigo interno representado por sua própria libido levou, então, ao recalcamento. Esse ponto é novamente repetido um pouco adiante na conferência, enfatizando a surpreendente natureza da cronologia dos eventos que invertem os modelos anteriores utilizados para pensar o medo e o recalcamento: “espero que não tenham perdido a visão do conjunto, que ainda se lembrem que estamos discutindo as relações entre medo e recalque. Nisso aprendemos duas coisas: primeiro, que o medo faz o recalcamento, e não o contrário, como pensávamos; e que uma situação pulsional temida diz respeito, no fundo, a uma situação de perigo externa (Freud, 1932-33/2010, p. 234; trad. modificada). Aqui, Freud descreve um jogo complexo entre o eu e o isso: “o eu nota que a satisfação de uma exigência pulsional emergente vai invocar uma das situações de perigo que são bem lembradas” (Freud, 1932-33/2010, p. 234; trad. modificada). Assim, o eu permite que as pulsões sejam satisfeitas momentaneamente, apenas tempo o suficiente para que o prazer seja acompanhado pelo aprendido temor do perigo externo que pode ser provocado se acaso o indivíduo satisfizer totalmente o isso: “o eu antecipa a satisfação da moção pulsional duvidosa, permitindo-lhe que reproduza as sensações de desprazer no começo da temida situação de perigo” (Freud, 1932-33/2010, p. 235; trad. modificada). O eu permite que as fantasias das pulsões satisfeitas evoquem um perigo imaginário a fim de estimular sensações de medo que, por assim dizer, induzem o recalcamento. Aqui, a mudança no modelo freudiano para pensar o medo e o trauma é nada menos que radical: uma inversão temporal — o medo precede, em vez de suceder, o recalcamento — modifica a nossa compreensão do medo, do trauma e do modelo de profundidade utilizado para pensar o incômodo (o retorno do recalcado). De fato, essa cronologia posterior oferece uma leitura em retrospecto do seu ensaio sobre o incômodo; leitura que poderia localizar as sementes de um modelo horizontal para pensar sensações incômodas (não baseado em trauma e recalcamento) nas discussões freudianas sobre o duplo, o esmaecimento das fronteiras e, até mesmo, o mote do temor do escuro — que aparece mais de uma vez no ensaio. O que temos aqui não é um aplanamento do modelo da psicologia das profundezas, apenas; mas a cronologia e o material do próprio trauma devem ser reconsiderados à luz das novas descobertas freudianas. O “temor ante situações de perigo externas” (Freud, 1932-33/2010, p. 239; trad. modificada) que caracteriza o medo anula, como afirma Freud, a postulada diferença entre medo neurótico e medo real. O primeiro era originalmente definido como um medo baseado numa ameaça imaginária, enquanto o segundo era baseado numa ameaça real. Contudo, Freud chega à conclusão de que essa distinção é, em última análise, falsa: “o medo neurótico transformou-se em medo real sob nossas mãos, em medo ante determinadas situações de perigo externas” (Freud, 1932-33/2010, p. 239; trad. modificada). A situação externa que é temida é precisamente o “momento traumático” (Freud, 1932-33/2010, p. 240; trad. modificada). Aqui, o trauma é definido não como uma experiência determinada por sua qualidade, mas sim por sua quantidade excessiva: “somente a grandeza da soma de excitação faz de uma impressão um momento traumático, paralisa a função do princípio de prazer, confere à situação de perigo a sua importância” (Freud, 1932-33/2010, p. 240; trad. modificada). Portanto, tememos uma excitação que é avassaladora em sua grandeza, não particular no seu conteúdo. Em certo sentido, Freud nos apresenta um problema matemático: quanta excitação pode o eu suportar num dado momento? No fim das contas, é uma questão de orientação no tempo e de economia. Mais uma vez, não nos é apresentada aqui uma estrutura profunda para o trauma, mas sim uma escala matemática. O que era analógico tornou-se digital, uma coleção potencialmente vertiginosa de zeros e uns. Revisada, a teoria freudiana sobre medo e trauma lança luz sobre modelos temporais e espaciais para pensar esses conceitos; modelos que, como tentei sugerir, já surgem aqui e acolá no ensaio de Freud sobre o incômodo. De fato, poderíamos dizer que os modelos duais da relação entre medo e recalque (e, portanto, a estrutura do trauma) — um apresentado na primeira conferência sobre medo e outro na conferência de 1932-33 — coexistem em “O incômodo”, forjando uma dualidade e uma unidade incômodas dentro do próprio ensaio. No final da segunda conferência, Freud reuniu esses dois modelos; a sua frase final afirma isso. O medo, conforme sugere ali, possui uma origem dupla: é “consequência direta do momento traumático” e “sinal de que ele ameaça repetir-se” — tanto um quanto o outro, conclui Freud (1932-33/2010, p. 241; trad. modificada). O trauma pode sinalizar o passado, mas pode apontar para uma ameaça futura, também. Ainda mais interessante é o fato de que, algumas linhas antes, Freud pergunta “por que não seria possível que tais momentos traumáticos ocorram no psiquismo sem relação com as supostas situações de perigo; que neles o medo não seja despertado como sinal, mas surja de novo, com nova motivação” (Freud, 1932-33/2010, p. 240; trad. modificada). Isso é, a meu ver, uma intervenção bastante notável nas reflexões freudianas acerca do trauma, as quais já estavam escalando vertiginosamente. Portanto, podemos pensar o trauma como apontando não apenas para o passado, mas também para o futuro; agora vemos que o medo associado ao trauma pode ser um produto puramente do presente, uma experiência afetiva que emerge, por assim dizer, do nada (“com nova motivação”). Se seguimos a lógica desse modelo para o trauma, parece que deixamos inteiramente o reino do “retorno do recalcado” e entramos num reino muito mais incômodo do que o cenário do horror tradicional poderia evocar. A noção de trauma e o seu medo concomitante como quantitativamente avassalador — como uma experiência que pode ser gerada novamente, a qualquer momento, sem qualquer referente óbvio — é tão assustadora quanto o temor que a criança tem do escuro, cenário com o qual Freud enigmaticamente encerra o seu ensaio acerca do incômodo. Se esse temor não é a projeção, no futuro, de um trauma passado — o reconhecimento de algo há muito recalcado —, e sim um modo de ser que indica uma avassaladora presença de quantidade, então a própria escuridão é uma imagem dessa experiência que excede a percepção e a nada se refere. Na última conferência sobre o medo, Freud descreve o nascimento do medo provocado pela temporária indulgência do eu às fantasias da libido em termos de um espaço intermediário. Com o seu idiossincrático estilo dialógico, ele responde a imaginários protestos dos seus ouvintes, que acharão esse novo modelo totalmente incompreensível, e talvez incomodativo:
“Alto lá!”, vocês dirão; “aí já não podemos acompanhá-lo!”. Têm razão, devo acrescentar ainda algo, para que isso lhes pareça aceitável. Primeiro, a admissão de que tentei traduzir na linguagem de nosso pensamento normal o que, na realidade, deve ser um processo não consciente ou pré-consciente que se dá entre montantes de energias num substrato inimaginável. (Freud, 1932-33/2010, p. 235)O processo que produz medo, afirma Freud, é “não consciente ou pré-consciente”; o medo não existe no agora da consciência, tampouco é produzido no passado, antes da formação dos pensamentos. Temporalmente, ele existe num momento entre o passado e o agora, um ponto no tempo para o qual não possuímos conceito. Da mesma forma, o próprio espaço é aquele que borra as fronteiras entre as categorias aceites: o medo surge “entre montantes de energias” “num substrato inimaginável”. Espacialmente, somos convidados a imaginar o inimaginável — um espaço entre quantidades de energia estabelecidas. Freud parece reintroduzir aqui uma estrutura de profundidade ao momento do medo, a indicação de trauma; porém, ele está apontando, mais uma vez, para um espaço intermediário, entre o abaixo e o acima — um espaço para o qual não possuímos conceito. Na minha opinião, o recorrente tropo do “entremeio” nas posteriores reflexões freudianas acerca do medo lança luz sobre a “intermediariedade” insistente, maçante, evocada em “O incômodo”. Heimlich e unheimlich não são opostos nem iguais. O duplo não é nem si-mesmo nem outro. O retorno de Freud à questão do medo da castração é aqui igualmente um Ersatz, e não um retorno ao lar. A própria castração, como aponta Cixous, é um significante do incômodo: “o que há do outro lado da castração? ‘Nenhuma outra significação’ a não ser o medo (a resistência) da castração” (Cixous, 1972/2025, n.p.). Ela compara o mote da castração ao de um homem sendo enterrado vivo, preso entre a vida e a morte, e numa experiência que mina a dicotomia entre dentro e fora: “e a castração? É o corte; é também o outro do enterrado vivo: um pouco de morte demais na vida; um pouco de vida demais na morte, no cruzamento fusional. Não há recurso a um dentro/fora” (Cixous, 1972/2025, n.p.). Nesse sentido, o temor da castração é o temor do entremeio, e a castração é um símbolo que nunca chega ao que significa. Em seu ensaio, Freud reflete sobre a intermediariedade do incômodo, sobre a forma como ele parece consumir todos os gestos em direção a um derradeiro significado:
com muita frequência e facilidade, é incômodo quando a fronteira entre fantasia e realidade se desfaz; quando algo que até então havíamos considerado fantástico apresenta-se diante de nós como algo real; quando um símbolo desempenha toda a potência e significação do simbolizado, entre outros.10 (Freud, 1919/2021, p. 99)A ameaça da perda de limites repete-se várias vezes na obra como um modo característico do incômodo. Aqui, o símbolo consome todo o significado; e a formulação freudiana “entre outros” (und dergleichen mehr) ilustra lindamente a incontrolabilidade do incômodo, semelhante à grandeza — avassaladora — da excitação que Freud atribui ao trauma em suas formulações posteriores. O entremeio — o demasiado próximo, mas não idêntico — evoca, é claro, a figura do queer. Cixous nos lembra que “é o entre que se infecta pela estranheza”, e que “o que o torna intolerável”, “esse Fantasma”, é que “ele apaga o limite entre dois estados: nem vivo nem morto” (Cixous, 1972/2025, n.p.). O fantasma reflete a figura da castração, um estado imaginado entre vida e morte, entre ter algo e nada ter. E Cixous nos lembra brilhantemente que, na definição schellinguiana do incômodo (“tudo aquilo que deveria permanecer um segredo, dissimulado, e veio à tona” [Freud, 1919/2021, p. 61]), ele associa o incômodo a uma “falta contra o pudor” (Cixous, 1972/2025, n.p.). “É no fim que aparece a ameaça do sexo. Mas ela sempre esteve lá, no próprio acoplamento e na proliferação de Heimliche e de Unheimliche: quando um toca o outro, o verbete do dicionário se fecha, fecha a história do sentido sobre ela mesma, desenhando nesse gesto a figura do andrógino” (Cixous, 1972/2025, n.p.). Como escreve Nicholas Royle (2003, p. 43), “o incômodo é queer. E o queer é incômodo”:11 Queer, derivado da palavra alemã quer, significa precisamente uma relação de liminaridade; uma relação distorcida e oblíqua, mas não de oposição; o estado afetivo e estético incômodo que aponta para as figuras queer no ensaio de Kate Thomas, “Eternal Gardens and the Queer Uncanny in Frances Hodgson Burnett’s In the Closed Room” [“Jardins eternos e o incômodo queer em Na sala fechada, de Frances Hodgson Burnett”] (1902). Tal como nos ensaios de Imke Meyer e Sangita Gopal, o incômodo encarna a intermediariedade tanto em termos temporais (espectros, fantasmas, efígies, crianças) quanto espaciais (a Índia e a Europa como duplos incômodos, nem iguais nem diferentes; o jardim como um espaço tanto controlado quanto incontrolável; a boneca como uma representação no aqui e agora que tanto invoca quanto assassina o amado). O incômodo e o queer apontam para o substituto, uma figura que nunca pode corresponder totalmente a um suposto original, mas que, não obstante, significa, no final, como um símbolo que “desempenha toda a potência e significação do simbolizado, entre outros” (Freud, 1919/2021, p. 99). Tal figura é, como nos mostra Kate Thomas, a tia. Em In a Closed Room, de Burnett, é a tia Hester, já falecida, que é o duplo queer da menina Judith — um fantasma que revive a “tutelagem queer” oferecida pelas tias. A tia é a figura materna que não é a mãe; a substituta que é preferível à própria mãe. Freud refere-se de modo oblíquo à figura da tia em “O incômodo”, no final do ensaio, que ele encerra com um retorno ao mote do temor da escuridão por parte da criança: “Da solidão, do silêncio e da escuridão nada mais podemos dizer, a não ser que estes são realmente os elementos aos quais está atrelado, para a maioria das pessoas, o medo infantil que nunca se extingue por completo. A pesquisa psicanalítica ocupou-se desse mesmo problema em outra ocasião” (Freud, 1919/2021, p. 113). O final convida precisamente ao tipo de leitura intertextual que tentei aqui. A nota de rodapé a essa passagem remete à terceira seção dos Três ensaios sobre a teoria sexual, de 190512. Contudo, na primeira conferência sobre medo, de 1915-16, Freud também discutiu acerca do temor que a criança tem da escuridão. Ele se refere à experiência do nascimento como o primeiro momento que produz medo intenso, levando a um subsequente temor de abandono pela mãe. Mas o seu exemplo da ligação entre esse temor e a mãe é estranhamente distorcido. Freud ouve uma criança chamando no escuro. Essa criança, porém, não chama pela mãe, mas sim pela tia: “Certa feita, ouvi uma criança, amedrontada com a escuridão, gritar para o quarto ao lado: ‘Tia, fale comigo, estou com medo’” (Freud, 1915-16/2014, p. 539; trad. modificada). A criança chama pela voz desencarnada, já uma incômoda coincidência de presença e ausência, não da mãe, mas da tia — a figura queer, por excelência. Aqui talvez tenhamos o encontro de prazer e desprazer naquele “substrato inimaginável” que é o lugar do incômodo; o lugar, como aponta Freud, que é terreno fértil para as “liberdades do escritor” [Freiheiten des Dichters] (Freud, 1919/2021, p. 108; Freud, 1919/2000, p. 273).
[1] Tradução do original inglês “The Place and Time of the Uncanny”, publicado pelo periódico Pacific Coast Philology, vol. 50, n. 2, na edição especial intitulada Familiar Spirits (dez. 2015), pp. 163-172. Disponível em: <www.jstor.org/stable/10.5325/pacicoasphil.50.2.0163>. Copyright © 2015 The Pennsylvania
[2] Heidi Schlipphacke é professora de Estudos Germânicos na Universidade de Illinois, Chicago, nos Estados Unidos da América. Especialmente interessada no Iluminismo alemão e em sua crítica, nas estruturas familiares e de parentesco, na literatura e no cinema alemães e austríacos do pós-guerra, bem como nos estudos queer e de gênero, sua pesquisa explora as maneiras pelas quais as artes imaginativas oferecem uma visão única sobre constelações sociais e paradigmas culturais mais amplos.
[3] O ensaio de Jentsch, “Zur Psychologie des Unheimlichen”, foi inicialmente publicado em dois números do volume 8 da Psychiatrisch-Neurologische Wochenschrift [Semanário Psiquiátrico-Neurológico]: a primeira parte, no n. 22 (25 de agosto de 1906, pp. 195-198); a segunda, no n. 23 (1º de setembro de 1906, pp. 203-205).
[4] Aqui a autora utiliza como referência a edição inglesa The Uncanny, traduzida por David McClintock (New York: Penguin, 2003), segundo a qual Freud teria acusado Jentsch de não possuir grande sensibilidade na análise que fez do incômodo. Porém, cumpre notar que, na referida passagem, Freud fala a respeito de si mesmo, e o faz ironicamente: “Pois bem, o autor desta nova empreitada” — isto é, o próprio Freud — “deve confessar aqui a sua particular obtusidade no que tange a essa questão, para a qual uma grande sensibilidade viria mais a calhar. Há muito ele não vivencia nem vem a conhecer nada que lhe tenha causado a impressão do incômodo, devendo então primeiramente imaginar-se com esse sentimento, despertar em si próprio essa possibilidade”. Cf. Freud (1919/2021, p. 49; grifo meu). [N.T.]
[5] Essa anedota é apresentada no prefácio editorial da edição alemã. Cf. Freud (1919/2000, pp. 241-275).
[6] “[…] no interior daquilo que é medonho, distinguir um ‘incômodo’” (Freud, 1919/2021, p. 48). Em alemão: “[…] innerhalb des Ängstlichen ein ‘Unheimliches’ zu unterscheiden” (Freud, 1919/2000, p. 243).
[7] Em alemão: “Also heimlich ist ein Wort, das seine Bedeutung nach einer Ambivalenz hin entwickelt, bis es endlich mit seinem Gegensatz unheimlich zusammenfällt” (Freud, 1919/2020, p. 250).
[8] Do alemão, “substituto” [N.T.].
[11]Para uma leitura do gótico como modelo para o incômodo queer, cf. Palmer (2012).
Caruth, C. (1996) Unclaimed Experience: Trauma, Narrative, History. Baltimore: Johns Hopkins University Press.
Cixous, H. (1972) “A ficção e suas fantasias: uma leitura da Unheimliche de Freud” [Trad. D. A. Pimentel & F. Trocoli], Lacuna: uma revista de psicanálise, São Paulo, n. -17, p. 1, 2025. Disponível em: <https://revistalacuna.com/2024/11/18/n-17-01/>.
Freud, S. ([1915]1918/2025) Luto e melancolia. Trad. P. S. de Souza Jr.. São Paulo: Blucher (pequena biblioteca invulgar).
_____. (1915-16) “O medo”. In Conferências introdutórias à psicanálise. Trad. S. Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, pp. 519-544 (Obras completas, Vol. 13).
_____. (1919) “Das Unheimliche”. In Studienausgabe, vol. 4. Org. A. Mitscherlich et al.. Frankfurt am Main: Fischer, 2000, pp. 241-275.
_____. (1919) The Uncanny. Trad. D. McClintock. New York: Penguin, 2003.
_____. (1919) O incômodo. Trad. P. S. de Souza Jr.. São Paulo: Blucher, 2021 (pequena biblioteca invulgar).
_____. (1920) Além do princípio de prazer. Trad. M. R. Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2020 (Obras incompletas de Sigmund Freud).
_____. (1930) “O mal-estar na cultura”. In Cultura, sociedade, religião: O mal-estar na cultura e outros escritos. Trad. M. R. Salzano Moraes. Belo Horizonte: Autêntica, 2020 (Obras incompletas de Sigmund Freud).
_____. (1932-33/2010) O medo e a vida pulsional. In O mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias à psicanálise e outros textos (pp. 224-262; P. C. de Souza, trad.) (Obras completas, Vol. 18). São Paulo: Companhia das Letras.
Jentsch, E. (1906). “A psicologia do incômodo”. In S. Freud, O incômodo. Trad. P. S. de Souza Jr.. São Paulo: Blucher, 2021, pp. 15-42 (pequena biblioteca invulgar).
Palmer, P. The Queer Uncanny: New Perspectives on the Gothic. Cathays: University of Wales Press, 2012
Royle, N. The Uncanny. Manchester: Manchester UP, 2003.
É professora de Estudos Germânicos na Universidade de Illinois, Chicago, nos Estados Unidos da América. Especialmente interessada no Iluminismo alemão e em sua crítica, nas estruturas familiares e de parentesco, na literatura e no cinema alemães e austríacos do pós-guerra, bem como nos estudos queer e de gênero, sua pesquisa explora as maneiras pelas quais as artes imaginativas oferecem uma visão única sobre constelações sociais e paradigmas culturais mais amplos.