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01_Tranversalizar a formação do psicanalista: supervisão, intervisão e plurivisão

Andréa Máris Campos Guerra

Cristiane da Silva Ribeiro

Fábio Santos Bispo

Marcela Fernanda de Souza

Mariana Mollica

Não me mandem fazer direito, eu não sou colonizado.
(Nego Bispo)

Ao tratar da supervisão, Lacan (1975/2016) adverte que devemos ter uma superaudição e não exatamente uma supervisão, mantendo sob os olhos o controle de uma prática psicanalítica. Em sua formação, o analista recebe a transmissão de seu ofício dos mais experientes pela via da oralidade, discutindo os impasses dos casos que atende em sua práxis clínica. Não se trata de uma posição de superioridade, mas de uma orientação na escuta fina do detalhe, na atenção às manifestações das lacunas por meio das quais o inconsciente se manifesta, à tomada dos efeitos de corpo provocados pelo ato de fala.

A construção do caso clínico, que se faz a posteriori, a partir da decantação das marcas de um sujeito com seu corpo de gozo, implica considerar aquilo que cai. O cadere faz cair o saber prévio e emergir o inédito na experiência coletiva entre pares, ensinantes e aprendizes da clínica psicanalítica (Viganò, 1999). Neste artigo, traremos o modo como temos trabalhado um desdobramento da supervisão, a partir das noções de intervisão e de plurivisão no Movimento Ocupação Psicanalítica. Trata-se de um programa continuado de clínica, pesquisa e difusão de prática psicanalítica antirracista e decolonial. Nessa direção, a supervisão clínica, com o psicanalista, associa-se à intervisão com campos afins e à plurivisão com saberes tradicionais. Supervisão e construção do caso clínico conjugam-se numa lógica que se deixa afetar pela diferença que a relação saber-poder produz ao incidir no território psicanalítico.

Retomaremos resumidamente os pressupostos clássicos da formação em Psicanálise em Freud e em Lacan e os discutiremos numa perspectiva decolonial, destacando o modo como os imperialismos produziram um impacto sobre a relação saber-poder, extraindo suas consequências para a formação do analista na dimensão da supervisão. Finalmente, apresentaremos o modo como realizamos, sustentadas por esta discussão precedente, o trio super-inter-plurivisão no Ocupação Psicanalítica, a partir de um caso.

A supervisão clínica em Psicanálise: Freud e Lacan

Neste tópico, retomamos a tese de Paula Penna (2022) sobre a supervisão, na qual ela resgata a extensa formulação freudiana e lacaniana sobre a formação do psicanalista. Desde Freud operando como supervisor para Breuer, no caso de Anna O., às correspondências que Freud estabeleceu com colegas que, na linha inversa, funcionaram para ele como supervisores – Fliess, o mais conhecido interlocutor das ideias e das práticas do pai da Psicanálise, mas também Salomé, Ferenczi, Jung e Pfister.

As discussões clínicas, porém, foram formalizadas com a constituição da Sociedade Psicanalítica das Quartas-Feiras. Tomando a resistência como modo de presentificação da transferência, os psicanalistas criaram um modo de trabalhar os sintomas psíquicos determinados pelo inconsciente. A transferência, como amor artificial responsável pela repetição dos clichês estereotípicos dos laços remotos do analisante, abria a condição de escuta e intervenção clínicas.

A institucionalização da IPA (International Psychoanalytical Association), criada em 1910, deu ensejo a um desenho de formação psicanalítica sustentado pelo tripé: análise pessoal, estudo teórico e supervisão – termo adotado a partir de 1925. Para Freud (1926/2021):

[…] só pode ser com os neuróticos – sob supervisão cuidadosa – que os analistas didatas serão educados para a sua atividade futura, não médica. Mas tudo isso exige um certo grau de liberdade de movimentação e não suporta limitações mesquinhas (p. 288).

Curiosamente ao romper com a IPA, Lacan traz novos movimentos ao modelo clínico e de formação psicanalíticos, mas não propõe nada novo quanto à lógica da supervisão. Na práxis, ele cria, com o tempo lógico como elemento de orientação, as sessões curtas, inventando o corte analítico, e formula a proposição do ato analítico, indo além da noção clássica de interpretação. Ao final de seu ensino, dedica-se mais à extração das consequências dos limites do sentido, o non sense, e da equivocidade como meios de tocar o real do gozo. Quanto ao tripé freudiano, ele não o questiona, mas aloca o cartel como lógica de trabalho coletivo e o passe como dispositivo para recolher os testemunhos de um percurso psicanalítico que se encerra. Sobre a supervisão, notadamente, Lacan não produz nenhum deslocamento, deixando-nos com a questão acerca de seu porquê em aberto.

Ao empreender a crítica aos desvios imaginários na interpretação, que alocavam o analista como ideal de Eu do analisante, e à rigidez na formação tradicional dos analistas didatas da IPA, que obedeciam à norma e não ao movimento desejante, Lacan fortalece a dimensão clínica da formação psicanalítica. Ao sofrer a ex-comunhão da IPA e ao fundar a Escola Freudiana de Paris, ele propõe três seções para a instituição, localizando a supervisão na seção de Psicanálise Pura:

1. Psicanálise Pura – com três subseções:

1.1. Doutrina da psicanálise pura;

1.2. Crítica interna de sua práxis como formação;

1.3. Supervisão dos psicanalistas em formação;

2. Psicanálise Aplicada;

3. Recenseamento do Campo Freudiano.

Para Lacan, a questão da análise didática se impõe pela própria prática e é fruto da tomada de responsabilidade do sujeito por seu próprio ato, sempre em risco de sucumbir aos preconceitos discursivos. A supervisão implica a assunção dessa responsabilidade:

É no interior desse problema e como um caso em particular que deve situar-se o problema da entrada em supervisão. Prelúdio para que se defina esse caso com base em critérios outros que não a impressão de todos e o preconceito de cada um. Pois sabemos que essa é atualmente sua única lei, ao passo que a violação da regra implicada na observância de suas formas é permanente (Lacan, 1964/2003, p. 236).

Paula Penna (2022) destaca que uma supervisão, como ponto central, deveria orientar a busca de se tirar proveito do equívoco, daquilo que, do significante, ressoa e pode liberar algo do sinthome, como aquele elemento sintomático irredutível à linguagem.  Ela retoma a citação de Lacan que constitui o eixo de sua hipótese:

Acontece que me dou ao luxo de supervisionar, como se diz, um certo número de pessoas que se autorizam por si mesmas, segundo minha fórmula a ser analistas. Há duas etapas. Há aquela em que elas são como o rinoceronte. Fazem mais ou menos qualquer coisa, e sempre dou-lhes minha aprovação. Com efeito sempre têm razão. A segunda etapa consiste em tirar proveito desse equívoco que poderia liberar algo do sinthoma. Com efeito, é unicamente pelo equívoco que a interpretação opera. É preciso que haja alguma coisa do significante que ressoe (Lacan, 1975-1976/2007, p. 18).

Na prática, a supervisão é um processo, um efeito de trabalho contínuo durante a práxis analítica. É um dispositivo que estabelece uma ponte entre o estudo teórico e a experiência clínica da Psicanálise, um aparato para articular o saber e a verdade à falta de sentido do gozo, enlaçando os três registros da realidade (real, simbólico e imaginário). É um modo de conectar o universal da teoria ao singular da clínica e de possibilitar a reabertura do lugar da escuta (Guerra, 2019). Podemos entender “a supervisão [como] uma limpeza permanente no lugar do gozo, permitindo ao analista manter-se no lugar do Um que se reitera, para deixar o paciente ser no que ele tem de mais singular” (Campos, 2015). Por isso, a prática da supervisão, na orientação freudo-lacaniana, visa o furo no saber, apontando para uma política que tem o real como horizonte do tratamento.

Quando, porém, nossa prática se estende para o contato com modos plurais de existência, é preciso estar advertido de que o horizonte da subjetividade de uma época é atravessado pela geopolítica que o localiza. Dados relevantes se destacam sobre saúde mental quando nos debruçamos sobre as condições histórico-sociais que produzem os modos atuais de sofrimento. Nesse sentido, o Brasil traz as marcas e as consequências de ter sofrido uma colonização por exploração, com sequelas e feridas ainda abertas.1

Os efeitos da colonização, calcada na escravização como modelo econômico – que ficou conhecido como plantation – e no patriarcado como modelo cultural, somam-se, no Brasil, à ausência secular de políticas públicas reparatórias e emancipatórias voltadas especificamente à herança colonial (Guerra, 2020). Elas foram mal iniciadas com a Constituição Federal de 1988, com um século de atraso. E os direitos fundamentais para os herdeiros dos processos de colonização e de escravização variam conforme sua origem, classe, gênero e sua cor de pele. Seu resultado não poderia ser diferente.

A população negra demorou a chegar à formação universitária com qualidade e hoje ainda recebe o impacto de condições desiguais de acesso ao trabalho, a cargos de chefia e a melhores condições salariais. Destacam-se as diferenças de gênero que ainda mantêm a mulher negra brasileira no último degrau da economia (Gonzalez, 1979/2020; Carneiro, 2023). A branquitude, como pacto narcísico de privilégios (Bento, 2022), sustenta um campo de ideais que, aliados ao racismo à brasileira (Munanga, 2020), ao racismo denegado, confirmam os significantes-mestres de um discurso alienante, sob cujo manto, muitas vezes, ocultam-se modos de gozo que precisam ganhar nome e tradução no contexto da clínica e da formação psicanalítica.

Como operar na supervisão de modo que ressoem os efeitos inconscientes recolhidos do discurso de cada época e de cada geopolítica? Como a supervisão pode operar como função na formação psicanalítica, resguardando os princípios éticos e clínicos da psicanálise, ao mesmo tempo sem pactuar com as vias hegemônicas do discurso do mestre, da aliança saber-poder em sua lógica contemporânea? Como lidar com a estrutura da linguagem que determina corpos e modalidades de gozo, atravessadas pelo resto que escapa à dominação linguageira e ao campo da representação e, ao mesmo tempo, incluir, nessa estrutura, a dimensão material, econômica, das condições de existência que afetam igualmente a produção sintomática? Como trabalhar com o inconsciente como acontecimento de corpo e como estruturado como linguagem, entendendo que é a própria linguagem que constitui o mundo?

 

Império e Imperialismos: uma leitura lacaniana

Lacan (1969-70/1992, 1971/2009) abordou essas questões introduzindo a noção de discurso como estrutura sem palavras que sustenta o laço social. O campo de adestramento do gozo, distribuído de modo desigual, articula bordas invisíveis de acessibilidades e inacessibilidades que, no campo da linguagem, fundam hiatos para qualquer sujeito que fala. O que vemos hoje, no testemunho com coletivos de população negra, em geral periféricas, é o modo como o atravessamento desse campo de adestramento, que Mestre Bispo iguala à desterritorialização produzida pelo colonialismo (Santos, 2023), incide sobre os modos de resposta inconsciente ao mal-estar assim engendrado. Portanto, raça, classe e gênero se materializam politicamente como experiências estruturais de poder, impondo violenta ou docilmente hierarquias que criam condições discursivas não facilmente evidentes na trama da linguagem. Com suas astúcias e armadilhas, criam apagamentos, esquecimentos, fetiches, criptas e obstáculos de distintas ordens.

Nesse sentido, Alemán (2016) traz uma interessante distinção entre subjetividade e sujeito a qual tem um valor clínico para a Psicanálise. Para ele, enquanto a subjetividade seria o efeito das relações de poder construídas ao longo da história, o sujeito seria aquele elemento inapropriável pelo discurso e pela história, que se apresenta como sintoma, sendo também aquele sobre o qual a psicanálise opera. São ambas as dimensões estruturais que atravessam a experiência do ato de fala do sujeito do inconsciente (falasser), como sugere Cardoso (2023):

Há uma diferença dos efeitos entre a marca constitutiva do sujeito e as construções ideológicas históricas, que visam dar tratamento ao sujeito. A marca constitutiva é subjetiva e estrutural, fazendo com que algo do sujeito seja trans-histórico […], inaugurando a dimensão de uma singularidade irredutível, um resto inapropriável a qualquer discurso, do qual o sujeito pode fazer seu sinthoma. No entanto, para além desta marca estrutural, há uma outra lógica, essa sim histórica e política, que se caracteriza pela sua tentativa de colonizar essas condições estruturais, através do que Alemán (2016) chama de produção de subjetividade das “lógicas do poder” (p. 20-21).

Assim, numa operação em que o universal hegemônico foi tomado conceitualmente como sendo equivalente ao estrutural no mal-estar colonial (Guerra, 2022), a experiência do falasser tornou-se, pela singularidade e contingência, uma chave que abre a escuta clínica, mas que não garante a escuta dos modos e dos contornos políticos da experiência vivida. Quando, nos relatos clínicos de supervisão, testemunhamos a condição de uma leitura racializada do falasser, como sendo intrínseca à experiência de fala e ao acontecimento de corpo, podemos situar, em nosso contexto, o que Lacan aponta como uma escuta que esbarra na “impressão de todos e [no] preconceito de cada um” (Lacan, 1964/2003, p. 236). Algumas falas podem ilustrar: “recebi a indicação de uma psiquiatra para atender um caso de paranoia, quando se tratava de uma experiência de violência racial”, “mudei de analista, quando a minha antiga psicanalista me disse que eu estava cismada por ser sempre perseguida pelo segurança no supermercado, que era coisa da minha cabeça”, “sofri muito – e talvez mais tempo do que deveria – e custei a entender o que se passava comigo, quando, a cada vez que falava de uma vivência de racismo cotidiano, meu analista dizia que isso não interessava em minha análise”.

Face ao que consideramos hoje como uma exigência na formação do psicanalista de qualquer país, etnia, raça, gênero ou classe, pensamos, pois, que, no tripé da formação do analista – que inclui a formação teórica, a experiência clínica e a supervisão –, podemos incluir esse mesmo desdobramento dialógico também no âmbito da supervisão. Se, no âmbito da formação teórica, temos o diálogo da psicanálise com outros campos de estudos, incluídos aqueles decoloniais e antirracistas; e, no campo da experiência clínica, temos uma extensão para além do consultório, marcada pelo encontro no território com os movimentos de corpo, sejam coletivos, sejam singulares, no âmbito da supervisão também pensamos em estratégias que pudessem abrir uma condição de formação clínica atenta aos impasses geopolíticos de nossa época.

Nossa proposta, que será explicada na última seção deste artigo, partiu de uma experiência de escuta de outros modos de a supervisão psicanalítica se estabelecer. Propusemos, então, um modelo que funciona em três lógicas distintas: a supervisão psicanalítica tradicional, realizada de modo coletivo; a intervisão, em que outros saberes formais são convidados a lerem os mesmos casos a partir de sua disciplina; e a plurivisão, em que mestres e mestras dos saberes tradicionais são convidados/as a analisar as situações clínicas trazidas. O deslocamento, operado dessa maneira, deixa ver o que antes permanecia invisibilizado – não apenas pelas operações de defesa inconsciente, como o recalque ou o desmentido, mas sobretudo pela tendência epistemicida do saber ocidental, que aniquila formas plurais de presença dos distintos modos de ocupar o mundo (Santos, 2023).

Vivemos uma espécie de levantamento do véu que recobria, política e simbolicamente, o regime de distribuição hierárquica do gozo entre os corpos e os regimes de poder. Antes, quem os distribuía não entrava no regime da distribuição. Hoje, essa topologia se dá a ver em sua obscenidade. Ainda assim, é insidioso o risco de se perder de vista o modo como se distribui discursivamente o gozo, tanto na supervisão clínica psicanalítica, quanto na própria práxis clínica, na medida em que a escuta pode recair sobre a individualização do sintoma e do sofrimento psíquico.

Lacan (1968-1969/2008) nos ajuda a desvelar ou a olhar de outra perspectiva o sintoma. Ele cartografa o que mudou em nossa geopolítica e em nosso tempo histórico ao marcar uma diferença essencial na passagem do Umpério para os imperialismos. Evidencia, assim, a diferença fundamental quanto à ruptura entre saber e poder, quando essa passagem se realiza. No tempo do Umpério, saber e poder se equivaliam, pois quem contava era também quem distribuía. Poucos sabiam fazê-lo. Por isso, todos os impérios eram justos. A Europa se encontrava no tempo em que o saber se concentrava na Igreja e no Feudo, enquanto, nos territórios desconhecidos por seus mapas, falava-se outra língua, de outras matrizes, e os saberes não dialogavam num modelo global de estratificação do poder. Estamos falando, portanto, de uma concentração de saber e de poder aos moldes do Mestre Antigo. Esse modelo forjou uma hierarquia entre corpos, entre saberes, entre gêneros e entre poderes, a qual, ainda hoje, ressoa, mesmo que já fissurada. E o que a fissurou?

A eclosão da disjunção entre saber e poder, que Freud foi um dos poucos a conseguir lê-la a seu tempo e em sua geopolítica. “Ele, por sua vez, a lê, lê seus efeitos nos sintomas que se produzem num certo nível do subjetivo” (Lacan, 1968-1969/2008, p. 288). A apreensão de uma ordem normativa adestradora foi, ao tempo de Freud, sua operação de desvelamento de uma lógica racional que se supunha universal e dominante. Contra a razão ocidental moderna, Freud ergueu a experiência com o inconsciente. Face a uma nova distribuição do saber, operário, as coordenadas do poder e da economia se rearranjaram, avançou Marx. Saber e poder não mais equivalem na mestria moderna. Quem sabe é o trabalhador; porém, quem leva a vantagem, na forma de mais valia, é o senhor. O que Lacan nos convida é a pensar essa nova condição:

Trata-se de denominar essa disjunção, de definir em que ela se opera e de não pensar que a evitaremos com sabe-se lá que maneira episódica de virar a casaca do poder – dizendo, por exemplo, que tudo se ajeitará, porque aqueles que até aqui eram oprimidos pelo poder agora o exercerão (Lacan, 1968-1969/2008, p. 288).

Torna-se evidente, assim, desde Freud, que o poder não pode ser reduzido a uma norma ou a um cosmo. Essa disjunção não pode ser preenchida. Aí teríamos a cilada do universal hegemônico que toma uma particularidade como universalidade, acreditando tampar a ruptura entre saber e poder com a doutrina do pensamento único. Um continente não pode mais se arvorar a ser o centro do mundo, dotado de um saber universal válido para todo o globo terrestre. Essa perspectiva de criação de um saber suposto universal assenta-se sobre a invisibilização e o aniquilamento – epistemicídio – de outros, vigorando a partir de um ato de violência epistêmica. Aimé Césaire (1950/2020) e Frantz Fanon (1952/2020) já haviam feito essa denúncia nos anos 1950.

Lacan a enuncia dizendo que, quaisquer que sejam nossos sintomas e nossas desventuras, o decisivo é essa disjunção entre saber e poder. “O real é isso. Ali onde as pessoas morrem de fome, elas morrem de fome. Não falta nada. Por que se começa a falar de falta? Porque elas fizeram parte de um império” (Lacan, 1968-1969/2008, p. 290). Foi justamente porque o saber teve um crescimento desmedido em relação à distribuição do poder que seus efeitos se fizeram notar e desvelaram a obscenidade de sua estrutura de gozo. Daí nasce a incitação “a uma subversão ou revisão do universal” (Lacan, 1968-1969/2008, p. 290). O universal não é o estrutural (Guerra & Lima, 2021).

Essa contagem, seja qual for o nível de estrutura em que a situemos no simbólico, tem efeitos no imaginário, […] como a ordem pela qual o real de um organismo, isto é, um real totalmente situado, é completado por um Umwelt. […] A contagem tem o efeito de fazer surgir no nível do imaginário aquilo que chamo de objeto a (Lacan, 1968-69/2008, p. 291).

O modo como se relacionam a imagem especular – i(a) – e o objeto a é o que fornece, no nível dos sintomas, seu valor de modelo, em especial quanto à disjunção entre saber e poder, como acabamos de ver. O funcionamento do objeto a como efeito do simbólico no imaginário evidencia sua função “como máscara da estrutura do Outro” (Lacan, 1968-1969/2008, p. 293), que vela o que, de real, está lá – como a fome. Considerar, portanto, o que o olhar encobre implica em desdobrar o modo como o gozo se articula como discurso e incide em cada falassser. Portanto, uma escuta clínica que, hoje, se outorgue lacaniana, não tem como não partir dos efeitos dessa disjunção entre saber e poder, incluindo suas consequências. É onde nossa proposição sobre o tripé da supervisão encontra esteio para ser verificada. Porém, antes de explicá-la, vamos situar o Movimento Ocupação Psicanalítica, que resguarda os princípios psicanalíticos, advertido dos imperialismos e do racismo.

 

O Programa Ocupação Psicanalítica

Face a esta situação de desigualdade radical, visando à clínica, à pesquisa e à produção-difusão de fundamentos teóricos antirracistas e decoloniais no campo psicanalítico lacaniano, o Movimento Ocupação Psicanalítica foi criado em 2020. Ele trabalha na consolidação de práticas antirracistas e decoloniais e está sediado em quatro universidades federais, em Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro e Recôncavo Baiano, operando com verba federal, oriunda de emenda constitucional federal. Sua equipe, de cerca de oitenta pessoas, é composta de professores universitários, voluntários, profissionais e estudantes de graduação e de pós-graduação orientados pela psicanálise lacaniana. O Ocupação recebeu o Prêmio Virgínia Bicudo de Melhores Práticas Antirracistas Brasileiras em Psicologia, pelo Conselho Federal de Psicologia, em 2022.

Suas três frentes são: (1) escuta clínica psicanalítica antirracista, individual, coletiva e institucional; (2) pesquisa e produção científica sobre psicanálise, racismo e branquitude; (3) difusão, formação e orientação quanto à teoria psicanalítica e às práticas antirracistas. Esses eixos se desdobram em diferentes iniciativas para o público brasileiro. Já acompanhamos mais de mil pessoas, coletivos e instituições em distintas situações. Sabemos, porém, que é muito recente a entrada da discussão antirracista e contracolonial no campo psicanalítico.

É preciso reconhecer que boa parte da tradição psicanalítica brasileira contribuiu para uma sociedade sem manicômios, construindo, juntamente com usuários, familiares, idealizadores e trabalhadores do Sistema Único de Saúde (SUS), as transformações necessárias para a implantação da reforma psiquiátrica, que retirou grande parte de pessoas negras e pobres de dentro dos hospícios. Isto significa dizer que a psicanálise brasileira, em sua práxis no campo da saúde pública, ajudou a promover o desencarceramento do que representava o manicômio enquanto navio negreiro. Por outro lado, nem os entusiastas da reforma, nem os psicanalistas deram o devido valor às obras de Frantz Fanon, de Juliano Moreira e de Neusa Santos Souza, para citar apenas três entre os maiores nomes da negritude que promoveram, na psiquiatria ou na psicanálise, importantes contribuições para a reforma. Essa contribuição foi fundamental na construção epistêmica da racialização dos conceitos clínicos e políticos para o avanço de uma psiquiatria eminentemente clínica que deveria ser também decolonial.

A Psicanálise tem uma importante contribuição nesse sentido, pois sua direção ética se caracteriza por trazer à tona justamente aquilo que foi expulso da consciência e que retorna sob a forma do sintoma social brasileiro. Com Lélia Gonzalez (1983/2020) e Silvio Almeida (2018), podemos dizer que essa sintomática tem em seu cerne o racismo estrutural. A tendência hoje, na direção da psiquiatria e da saúde mental, é reforçar um regime de assistência ao usuário que toma o sofrimento, a inadaptação psicótica ao convívio, a depressão ou as compulsões através de uma espécie de vitimização. Porém, muitas vezes, a resposta é reduzida a políticas de saúde que focam nos sintomas e que ignoram o gozo subjacente, impedindo a vertente singular de uma saída construída pela via da palavra, da transferência e da interpretação.

Laurent (2014), em Racismo 2.0, circunscreve, na Europa, uma transição do racismo nazista, que eclodiu com a guerra após o crescimento do antissemitismo, para o racismo pós-colonial, que se dirige a imigrantes. Aqui, no Brasil, podemos dizer que o racismo segue uma tradição escravocrata, voltada para as classes populares, para os negros e para os indígenas. Embora haja distinções em relação às suas formas sociais, um ponto jaz intacto: uma comunidade se une pela rejeição de um gozo inassimilável. Com Freud (1921/1996), podemos dizer que a rejeição racista reúne sujeitos através de um traço de identificação com um grupo ou entre semelhantes. Com Lacan (1974/2003), acrescentamos que se rejeita um gozo não representável e não compartilhável, que envolve um não-saber fundamental no campo do Outro, que provoca horror e, comumente, a eleição de inimigos a serem exterminados. Eis o modo de constituição do objeto da segregação, desses que se tornam alvos do ódio e que chegam adoecidos, em sofrimento. Muitos dos sujeitos que chegam para atendimento estão nesta zona do não-ser fanoniana, sem lugar, e parecem mortificados ou identificados a esse objeto segregado.

Por isso, o Movimento Ocupação visa constituir fundamentos sólidos para que esta discussão sobre o adoecimento e o sofrimento mental da população negra possa ser empreendida de modo rigoroso e orientado. A cada vinte e três minutos, um adolescente homem, negro e periférico no Brasil morre assassinado. Uma menina, especialmente negra e entre treze e quinze anos, sofre abuso sexual e/ou estupro a cada oito minutos. Somos o país que mais mata pessoas trans, em sua maioria mulheres trans. Como pensar as defesas inconscientes, sendo o inconsciente estruturado como linguagem e afetado pelo ato de fala (falasser), a partir dessa estrutura que segrega e mata?

Na perspectiva global, distintos psicanalistas, no eixo de colaboração Sul-Sul Global e Oriente-Ocidente, vêm se dedicando à analítica dessa problemática, evidenciando se tratar de um tema hoje indispensável (Guerra & Lima, 2021). Além de manifestos e documentos brasileiros pelo chamamento e pelo respeito a essa dimensão estrutural do adoecimento, a recente manifestação das Sociedades Britânica e Americana de Psiquiatria e de Psicologia assumiu a orientação antirracista e os efeitos deletérios do racismo sobre a saúde mental da população negra.

Como o campo psicanalítico, seu saber e seus praticantes podem intervir sobre esses efeitos? Atuando nestas três frentes, clínica, construção de saber e transmissão em psicanálise, traremos, aqui, o modelo de supervisão clínica que organiza o tripé do trabalho do Movimento Ocupação Psicanalítica, a fim de evidenciar modos de pensar a formação do analista atenta às questões sócio-simbólicas da estrutura política que incide sobre o corpo de gozo como discurso.

Como dissemos, nossa prática busca fundamentar-se na psicanálise de orientação lacaniana, em um diálogo constante com outros campos de saber que contemplam realidades geopolíticas, subjetivas e sociais de cada território ou comunidade em que atuamos. Temos visto que, para uma orientação clínica antirracista, precisamos ampliar nossa formação e nossa escuta para elementos que não são universalizados como hegemônicos, mas, quando não apagados, são tomados como locais ou contingentes. Entretanto, são estruturais e estruturantes de memórias, histórias e modos de vida de cada sujeito em sua comunidade.

Seguimos, nesse sentido, a advertência freudiana, em sua discussão sobre a análise leiga, quando propõe que a formação do analista precisa contemplar dimensões que ele não encontra nem no saber acadêmico, nem na sua própria clínica: “a instrução analítica também englobaria disciplinas distantes do médico e com as quais eles dificilmente se defrontam em sua atividade: História da Cultura, Mitologia, Psicologia da Religião e Ciência da Literatura” (Freud, 1926/2021, p. 284).

Essa enumeração freudiana é fundamental, na medida em que, a partir do diálogo com estudos antirracistas, podemos ampliá-la para contemplar, com Fanon, também a história das colonizações e, com autoras e autores como Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Mestre Bispo, Ailton Krenak, Clóvis Moura, Abdias Nascimento (entre outros), a história das resistências que nossas populações brasileiras, indígenas e quilombolas foram capazes de sustentar ao longo do tempo, incluindo aí, também, as suas mitologias, que orientam referências simbólicas não contempladas ou apagadas pelas referências hegemônicas. No que diz respeito à “psicologia da religião”, embora tenhamos um atravessamento histórico das religiões monoteístas de tradição judaico-cristã ocidental, temos, em muitos territórios, uma presença viva das religiões de matriz africana, que fazem parte da vida e da cultura das populações negras, ainda pouco conhecidas e discutidas pelo campo psicanalítico. Da mesma forma, o campo da literatura também demanda uma abertura para aquelas produções negras e indígenas que dialogam com nossos territórios.

Este enlaçamento de múltiplos saberes marca “a busca por uma clínica que se implica no rigor da formação, tenciona-se para pensar o momento histórico em que está inserida e que se dispõe a escutar a cidade” (Vitório, Santos, Bispo & Penha, 2022, p. 5) e as suas margens. Apostamos na possibilidade de aprofundar cada vez mais a convocação feita por Maria Lúcia da Silva (2017), uma de nossas intervisoras: “É preciso a inauguração de uma psicanálise brasileira comprometida com a construção de uma clínica que não recuse a realidade histórica-social de nosso país e que leve em consideração o impacto dessa história na construção das subjetividades” (p. 87). Vejamos como essa construção vem sendo feito no Ocupação.

 

Supervisão, plurivisão e intervisão

No Movimento Ocupação Psicanalítica, a ampliação dos dispositivos de supervisão foi construída paulatinamente. Num primeiro momento, fomos inspirados pela pesquisa que realizamos com outros coletivos de psicanálise, em um projeto que ficou conhecido depois como Clínicas de Borda (Guerra, Ferreira, Souza, Ribeiro, Dalfior & Santos, 2022). Pudemos conhecer várias estratégias clínicas e políticas para uma atuação psicanalítica conectada com os territórios e com as questões que emergiam da atuação coletiva; dentre eles, estavam as modalidades de atendimento, de estudo e de supervisão clínica. Em nossa própria experiência clínica com a psicanálise de orientação lacaniana, já sentíamos a necessidade de criar espaços de supervisão ampliados, para que uma transmissão dos impasses e das soluções encontradas pudesse ser realizada de forma mais sistematizada.

Foi tendo isso em vista que, no interior do tripé da formação do analista, desdobramos um tripé próprio do espaço de supervisão que pudesse conectar a orientação clínica da direção do tratamento com as dimensões teóricas e políticas que envolvem os nossos territórios de atuação: a supervisão, fundamentada na orientação lacaniana e construída a partir de relatos clínicos dos atendimentos e de discussões sobre a construção do caso e a lógica das intervenções; a intervisão, pensada como uma interlocução com outros saberes acadêmicos que pudessem trazer, para a leitura dos casos, outras dimensões não contempladas diretamente pela psicanálise; e a plurivisão, pensada como um espaço de interlocução com saberes tradicionais, não acadêmicos, vinculados aos territórios clínicos de atuação, como saberes indígenas, quilombolas e de religiões de matriz africana. 

O tratamento do objeto da segregação, a partir da supervisão clínico-institucional e coletiva que desenvolvemos no Ocupação, implica a dimensão do conceito de extimidade, de onde o supervisor responderá, fazendo repercutir ressonâncias da estranheza do mal-estar, gozo anômalo, que retorna sob a forma da tentativa de apagamento dos fenômenos do racismo, de forma que isso possa repercutir, de modo singular e distinto, para cada psicanalista. O mais íntimo é um objeto que paradoxalmente encontra-se no exterior, é êxtimo (Lacan, 1959-1960/1997, p. 173). O ódio que recai sobre um ponto insuportável a ser extirpado imaginariamente pelo grupo, um gozo do Outro que não reconhecemos, tem uma dimensão estrutural. Não podemos definir seu lugar na própria casa, no semelhante, mas a partir do território do Outro.

O supervisor tem, assim, uma função êxtima em relação à equipe do Ocupação e, portanto, tem como objetivo produzir enigma ali onde há um cenário muito objetivo que, embora aparente ser nítido, encobre a interrogação do gozo que produz fixação, cujo desvelamento produz angústia. É esse ponto insuportável que precisa ser tratado no sintoma e que sustenta a repercussão subjetiva da segregação no laço social. A própria função do supervisor é ser um estrangeiro que, no entanto, se estabelece naquele contexto com o intuito de incluir a diferença através de um enigma frente a um gozo estranho, que provocaria uma resposta discriminatória.

A supervisão opera para que seja possível acolher o que há de indomesticável nas pulsões. Se, de um lado, não cabe um ambiente neutro, em que o Outro opera para deslegitimar a diferença do sujeito objetalizado pelo racismo e seu sofrimento diante da violência, por outro, não cabe reforçar uma identificação à posição de submissão, nem somente um lugar de denúncia sem elaboração, num clima de ajuda assistencialista, já que os efeitos, nesse caso, não só não favorecem a subversão da dominação, como podem instituir outros pactos inconscientes de adequação do desejo.

Tudo conspira, na violência racista estrutural, para que o racismo não seja percebido ou para que seja recoberto, tanto pelo próprio paciente, que, muitas vezes, não se dá conta do quanto isso permeia seu mal-estar, quanto pelo próprio relato do caso por parte dos que sustentam a clínica psicanalítica, que, muitas vezes, podem tomá-lo de forma objetiva ou genérica, a ser combatido com formulações explicativas, compreensivas ou racionais. A evidência do racismo nem sempre corresponde a considerá-lo em seus múltiplos modos de incidência nos processos clínicos.

Assim, em termos descritivos da rotina de trabalho, enquanto mantemos as supervisões clínicas frequentes, em geral quinzenais, dos casos por psicanalistas, promovemos e participamos das intervisões e plurivisões interestaduais semestrais, sob articulação de um estado a cada vez. Esse estado traz a construção de um caso e este é discutido pelo intervisor ou pelo plurivisor, em separado, seguido das trocas abertas entre as/os presentes. A rotina do trabalho de acolhimento do sofrimento da população negra se mantém assim regular e acompanhada por essas distintas estratégias. Enquanto a intervisão traz uma/um especialista de outro campo disciplinar, a plurivisão convida uma/um mestra do saber popular ou tradicional para realizar sua leitura do caso.

Assim, a orientação do trabalho conjuga, enfim:

  1. Supervisão clínica: permanente e coletiva, com orientação freudo-lacaniana dos casos atendidos individualmente. Mantemos como prática o espaço de supervisão tradicional, em que um psicanalista mais experiente se propõe a escutar os relatos de casos de outros psicanalistas e a colaborar com a orientação clínica, buscando, na diversidade dos contextos e territórios, cernir os “princípios que funcionem como marcos de um tratamento possível” (Couto, Bispo & Leo, 2014, p. 400). Para a supervisão individual, buscamos preservar a possibilidade de endereçamento, considerando a dissimetria que a suposição de saber, pivô da transferência, introduz na possibilidade de leitura e de escuta dos casos clínicos;
  2. Intervisão: a partir das supervisões, são extraídos casos clínicos com questões a serem discutidas pelos intervisores, que são referências acadêmicas, intelectuais ou políticas em estudos sobre o racismo. A intervisão acontece com a apresentação do caso pelo Ocupação e a discussão com o convidado, seguida da construção coletiva, em encontros ampliados com a participação de todos os estados. Trazemos casos que já haviam sido trabalhados em supervisão e em conversações clínicas, dos quais extraímos alguns fragmentos para exposição e para questões, que tanto podem referir-se à direção do tratamento quanto aos enquadres políticos da escuta. Nossa proposta de intervisão também busca articular a singularidade do caso clínico, com as particularidades dos territórios e das comunidades, e a universalidade das condições de exercício da violência2;
  3. Plurivisão: acontece também com casos que suscitam questões extraídas das supervisões. Seu objetivo é contar com a participação de referências dos saberes populares e tradicionais, que historicamente deslocam o saber centralizado e hegemônico em seus territórios. Aqui, também cada estado traz, a cada vez, um caso construído, compartilhado com o plurivisor que o comenta; depois, segue-se a discussão com os demais presentes. A ideia da plurivisão não vem como um complemento, no sentido de compor um todo de saber, pelo contrário, ela emerge das lacunas de saber, nos pontos em que, ao invés de manter a estrutura hegemônica da invisibilização, podemos colocar o foco nos elementos estruturais mais específicos. É possível vislumbrar a riqueza de suas contribuições, na medida em que compartilham conosco experiências, cosmologias, valores e modos de vida muito presentes, mas, ao mesmo tempo, muito apagados e violentados no Brasil. Essas referências também escutam alguns casos e impasses oriundos de nossa clínica, além de questões relativas a modos de organização coletiva e de superação de impasses sociais importantes, como acesso a territórios, lutas políticas, violências e modos de cuidado.

    Para apresentar a transversalidade desse tripé no cotidiano do trabalho clínico, traremos um relato parcial de como a supervisão pode operar com a plurivisão em uma situação clínica psicanalítica, buscando cernir seus efeitos na escuta do analista.

     

A supervisão e a plurivisão em um relato de caso

Como vimos, o Movimento Ocupação Psicanalítica nasceu da constatação da necessidade de se pensar em práticas psicanalíticas que pudessem atravessar o pacto narcísico colonial – que segue violando cotidianamente corpos negros – através da (re)construção da psicanálise, que, implicada com os conceitos fundamentais, se propõe a escutar os efeitos nefastos da colonização, arraigados no laço social brasileiro, o qual possui, em sua estrutura discursiva, o racismo como sustentação. Portanto, implicados com a psicanálise, e certos de que uma escuta que se propõe não-toda pode contribuir para uma discussão que repense a psicanálise brasileira, lançamo-nos, na vertente clínica do projeto, a escutar aqueles que sentem na pele a violência cotidiana do racismo: os moradores de um quilombo urbano.

Chegamos ao Quilombo através de uma demanda para intervir em um caso de saúde mental grave, que estava “adoecendo todo o Quilombo”. Tecendo essa intervenção, percebemos, em supervisão, que Melissa (nome fictício) e seu sintoma se conectavam com o sofrimento coletivo e individual dos/das demais moradores e moradoras do Quilombo, atravessado pelo universal de uma violência estrutural, cotidiana, que ali ganhou forma numa ação judicial de despejo, dentro de um processo de reapropriação das terras onde moravam, pelos supostos herdeiros da mesma.

Nossa chegada incluiu visitas in loco, após pandemia, e o conhecimento do Quilombo e das pessoas que lá residiam, o que construiu e sustentou a transferência que fez o trabalho acontecer. Para escutar a demanda em torno de Melissa, ouvimos, na forma de entrevista, quatorze dos trinta e quatro moradores pertencentes às quatorze famílias que lá residem. Essa escuta-diagnóstica, sob supervisão, pôde decantar aquilo que habitualmente desaparece numa escuta clínica tradicional: a dimensão estruturante do discurso sobre o corpo de gozo do falasser. Pudemos verificar que Melissa era o índice de um modo de sofrimento gerado pela coação da violência de estado e da violência racial.

O Quilombo foi reconhecido como tal em 2019, após uma luta intensa dos moradores, que, atravessados pelo universal do racismo incorporado pela violência de Estado, vivenciaram o risco iminente da expropriação da própria terra. Em busca dos documentos de propriedade de seu terreno, descobriram sua origem quilombola, de resistência à escravização. A resposta construída foi: “somos um quilombo”, o que não aconteceu sem efeitos no coletivo e nas singularidades. No período da ameaça de despejo, sintomas como bulimia, alcoolismo, uso de drogas e ansiedade surgiram ou se intensificaram.

Significantes como “ficamos com medo”, “todos aqui ficam com neura”, “a gente não dorme” foram recolhidos frequentemente nas conversações, como forma de tentar nomear o pior que se apresentou por meio de rondas policiais que invadiram casas, em uma vigilância que se tornou ininterrupta para os moradores. Em supervisão para análise da escuta preliminar individual da entrevista, pudemos definir um plano estrutural de leitura em que se destacaram as dimensões de sofrimento, que puderam assim ser articuladas (Guerra, 2019):

  1. Dimensão singular: como estratégia de gozo de cada sujeito;
  2. Dimensão particular: na forma de resposta coletiva, como tratamento da violência sob novo significante (quilombola);
  3. Dimensão universal: como incidência da herança colonial e do racismo, vivida como violência de estado e especulação imobiliária.

O que uma supervisão desatenta à transversalidade dessas dimensões teria podido ler? Talvez teria recebido Melissa individualmente, num modelo neoliberal de responsabilização do sujeito por sua alta performance, feito algumas sessões individuais e encaminhado a uma psiquiatra. Isso se ela aderisse à proposta, pois era extremamente resistente a qualquer intervenção quando ali chegamos. Após as supervisões, que se alternavam com a escuta individual de moradores e moradoras, propusemos uma intervenção que durou um ano e meio. Construímos a intervenção, organizada pela metodologia da conversação psicanalítica, realizada uma vez por mês, acompanhada de atendimentos individuais a partir de demanda, além de um trabalho de resgate e construção com as crianças sobre seu lugar naquela estrutura.

Em uma conversação, uma moradora comentou: “Tudo isso que passamos foi ruim, mas também foi bom. Nós descobrimos que temos força”. Ao relatar um dos encontros com a polícia, disse: “Eles queriam que eu assinasse um papel sem ler, mas eu me recusei. Sei dos meus direitos”. A cada ato violento, uma estratégia de resistência, uma voz se insurgia, um corpo resistia. Grada Kilomba (2008/2019), em Memórias da Plantação, questiona: “pode a subalterna falar?” (p. 47). A esse questionamento, responde que não; porém, não no sentido de não poder falar, mas de um silenciamento engendrado pela estrutura de poder, sustentado pela colonialidade. Grada acrescenta, sustentada em bell hooks, que é a margem que faz o centro, que a voz pode emergir, então, como resistência.

É isto que verificamos ao escutar essas pessoas: o que é nomeado como força e saber é resistência, não surgiu com a tentativa de expropriação; é modo de vida, é ancestral, e o nome Quilombo respaldou a luta jurídica de um modo de vida que já era marca desse povo. “Descobrimos que a gente já vivia como quilombo, só não tínhamos esse nome” – disse uma moradora, ao relatar uma formação que ocorrera recentemente no Quilombo.

Tendo em vista o conceito de Gonzalez (1988/2020), que consiste no reconhecimento das marcas de africanidade na constituição da sociedade e da cultura brasileiras frente à sua negação, a qual caracteriza o racismo à brasileira, a ideia de quilombo se apresenta como proposta de constituir povo e resistência. Típico fenômeno brasileiro, os quilombos se apresentaram enquanto “sistemas sociais alternativos”, “brechas no sistema escravista”, sendo hoje nome de um movimento atual, o “quilombismo” (A. Nascimento, 1980, B. Nascimento, 2021).

Com a supervisão psicanalítica, pudemos criar uma lente de leitura que incluiu os processos estruturais fora do regime dos universais hegemônicos. Sem perder de vista a escuta atenta à singularidade do gozo de cada morador/a e o acolhimento às demandas individuais, pudemos trabalhar mensalmente, com o coletivo, o que emergiu a posteriori como luto não elaborado pela perda da matriarca, o qual atravessava as falas sob a forma de um silêncio de tom melancólico e depressivo. Foi Melissa, exatamente, quem o enunciou, abrindo a condição de elaboração da raiva, da culpa e do sofrimento ali estancados.

Mas, aqui, gostaríamos de retomar um ponto de virada produzido pela plurivisão no processo clínico de orientação psicanalítica. Foi um marco que descentrou nosso olhar sobre o texto tradicional de abordagem psicanalítica. O caso não foi levado à intervisão. Numa das plurivisões, aquela em que levamos o caso de Melissa, tivemos Makota Celinha e Pai Ricardo como plurivisores. Destacaremos de Makota a denúncia da violência colonial e da sua herança para este Quilombo e nos deteremos numa frase de Pai Ricardo.   

Ao relatarmos a construção do caso de Melissa, retomamos seu diagnóstico recente de esquizofrenia. Pai Ricardo, ao tomar a palavra, disse que a esquizofrenia era um nome da psiquiatria e que dizia respeito a ouvir vozes, a enlouquecer. Esse nome, segundo ele, etiqueta e mortifica as pessoas, pois, depois dele, não se pode mais ser, no sentido de ser a si próprio, com seu nome e com suas singularidades. Tudo passa a girar em torno dessa classificação. Primeiro plano.

Além de falar do risco da hipermedicalização alienante, ele acrescentou outro aspecto que gostaríamos de destacar. Pai Ricardo lembrou que, no terreiro de umbanda do qual cuida, muita gente ouve vozes; ele, inclusive. A voz que ele ouve guia todo o seu trabalho religioso. Além disso, essas vozes revelam importantes orientações, pacificam, conduzem processos de restauração, como unguentos que dão conforto. Como acrescenta Makota Celinha, não fazem o que a psicanálise faz, pois são outra forma de cuidado. Mas a questão que daí emergiu, na fala de Pai Ricardo, referiu-se ao diagnóstico, ao nome e ao lugar simbólico que o fenômeno de escutar vozes podia ganhar. Seriam, então, todos eles e todas elas reduzidos/as à experiência da loucura, seriam todos/as esquizofrênicos/as?

O deslocamento do olhar promovido pela plurivisão cria uma outra perspectiva, em que o diagnóstico pode não ser uma orientação clínica para direção do tratamento, de escuta ou medicamentoso, mas pode se tornar, ele próprio, iatrogênico. Também a plurivisão acena para outros modos simbólicos de pertença que descentralizam uma posição suposta universal, mostrando que ela não é mais do que um particular e que há outros modos de tratar os acontecimentos de corpo, conectados com saberes e com tradições coletivas. Deixar de ver – ou de escutar! – essa diferença na clínica implica uma operação de violência epistemicida sobre o saber de quem fala – único regente a constituir a direção de uma escuta clínica e psicanalítica orientada.

Não se trata de pensar se um esquizofrênico sofre mais ou menos, ou se sofre diferentemente por ser um quilombola. Trata-se de pensar, de modo original e distinto do habitual consensuado e generalizado, o que pode ser uma voz no conjunto cosmológico da constelação simbólica de quem a escuta. Ouvir vozes, assim, pode ser o nome e a função de distintos modos de presença de um falasser. Aqui, a supervisão, em encontro com a plurivisão, desenha uma abertura de horizontes que inclui o inconsciente sem dispensar a geopolítica. Sujeito e subjetividade estão em conflito permanente e estrutural. Há uma inversão da clássica pergunta sobre como introduzir a história na estrutura. Dado que, pelo que vimos, a história já está lá, o que fazemos é extrair a história da estrutura e, assim, do que resta fazemos nossa clínica operar

 

Conclusão

Por fim, nossa aposta continua sendo a escuta clínica, que nos faz revisitar e avançar a teoria lacaniana, buscando a construção de uma psicanálise brasileira implicada com a nossa história e com a nossa geopolítica de violência e de silenciamento de um povo que se junta, que aquilomba e que resiste desde 1500. Implicar o sujeito com seu sintoma, avisados de que o Outro, colonial, atravessa todos os corpos, é a nossa direção para um modelo de supervisão que atente para a condição estrutural na formação de um ou de uma psicanalista.

O dispositivo da supervisão em tripé tem contribuído não apenas com a qualificação da escuta dos casos, mas também com o próprio modo de organização coletiva e política do Movimento Ocupação Psicanalítica. Tem nos ajudado na dialética entre o singular e o plural, entre o saber acadêmico e o saber comunitário, evitando a tendência totalitária do saber universitário. É um modo de tentar operar a confluência, tal como proposta por Mestre Bispo, entre o universal e o singular, entre a escrita e a fala, entre o saber sintético e o saber da vida, entre uma contribuição que pode advir do saber psicanalítico e uma contribuição que os saberes de cada comunidade também podem nos transmitir. “Uma confluência entre os saberes. Um processo de equilíbrio entre as civilizações diversas desse lugar. Uma contracolonização” (Santos, 2023, p. 31). Esse dispositivo nos convoca a fazer aquilo a que o psicanalista se propõe: suspender o domínio do saber-poder para que algo do desejo possa emergir.

[1] Os dados da última Conferência Livre Nacional de Saúde Mental da População Negra (CLNSMPN, 2023), somados ao Relatório Final da 1ª Conferência Livre Nacional em Saúde Mental da População Negra (2023) e ao Plano da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (2017), trazem ao debate o “enfrentamento das situações de desigualdade originárias da escravidão e do processo colonial que suscita as iniquidades da Saúde da População Negra” (CLNSMPN, 2023, p. 4). Esta população é a que mais sofre violências de toda ordem, encarceramento, internações psiquiátricas, segregação urbana, mortes precoces, além de acumularem os mais altos níveis de vulnerabilidade social e as mais baixas taxas de acesso aos serviços de saneamento básico e de saúde. A correlação entre racismo institucional e racismo estrutural articula modos de pertencimento, classificação, hierarquização e destino de corpos de modo racializado – não sem contar com as questões de classe e gênero (Brasil, 2017). 

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Andréa Máris Campos Guerra

Psicanalista e Professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Cristiane da Silva Ribeiro

Psicanalista, Mestra em Promoção de Saúde e Prevenção da Violência pela Faculdade de Medicina da UFMG, autora do livro Tornar-se negro, devir sujeito (AIC, 2022).

Fábio Santos Bispo

Professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Institucional da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Marcela Fernanda de Souza

Psicanalista, Mestra em Psicologia (UFMG), Professora do curso de Psicologia no Centro Universitário Católico do Leste de Minas Gerais. Psicóloga no Centro Socioeducativo de Ipatinga.

Mariana Mollica

Psicanalista, pós-doutora (PNPD/CAPES 2018 a 2022) e pós-doutoranda Sênior da FAPERJ pelo Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).